Da Arte Naïf ao Abstrato, os elos de Ana Camelo entre Brasil e Portugal

No descontraído ambiente do Kreatori, em Lisboa, Ana Camelo fala de sua vida, trajetórias e seus trabalhos artísticos

Há algumas semanas, fui a Lisboa para reuniões de trabalho e para rever amigos e sobrinhos. E não há melhor sítio para conversas agradáveis e inteligentes, sem perder o humor, do que o #Kreatori, bar-galeria e ponto de encontro cultural de #Fabiano Cafure.

Foi ali que conheci Ana Camelo, uma mulher vigorosa, de longos cabelos brancos, ar jovial e uma gargalhada contagiante. Para além disso, tem um charme e um talento artístico ímpares. Precisa de mais? É carioca e vive em Lisboa – já é quase portuguesa! Entre trocas de palavras animadas, Fabiano olhou-me de forma enfática e disse:

— Lena, você tem que entrevistar a Ana!

E, sem hesitar, apresentou generosamente à sua amiga o meu blogue Vida em Ponto e Vírgula, um espaço que criei para dar a conhecer sítios e pessoas ímpares que cruzam o meu caminho. O convite foi aceite, e combinámos uma conversa para a semana seguinte, no https://www.instagram.com/kreatorilx/Instituto Kreatori.

Entre o Brasil e Portugal

Nascida na zona norte da cidade maravilhosa, Ana viveu em vários bairros da zona sul até se mudar para Lisboa, com o marido, Ernesto, ainda de forma temporária, em 2014. Portugal sempre esteve no radar do casal, pois Ernesto pertencia à primeira geração de brasileiros de uma família portuguesa que emigrou para o Brasil. O facto de trabalhar na área da informática permitiu-lhe continuar a exercer remotamente. Até que, em 2017, devido ao ambiente político, decidiram — tal como muitos outros brasileiros — emigrar para Portugal.

Os caminhos na vida de Ana também passaram por diversas mudanças de rotas. Foi assim que licenciou-se em Matemática e, depois de ser professora particular, assumiu a gestão financeira da empresa familiar. Já depois dos 50 anos, decidiu dar um novo rumo à sua vida e retomou uma antiga paixão de adolescência: a pintura.

Dos primeiros quadros ao reconhecimento

Autodidata, começou por oferecer os seus quadros como presentes a amigos, vizinhos e funcionários do prédio. No entanto, com o passar do tempo, a sua produção tornou-se tão intensa que acumulou um grande número de obras. Um dia, ao ver um anúncio sobre uma exposição de arte naïf, identificou-se com esse estilo e decidiu visitar a mostra no Museu Nacional de Arte, que na altura estava na freguesia das Laranjeiras. Para sua surpresa, ao mostrar fotografias dos seus quadros a uma professora, recebeu um reconhecimento inesperado:

— Ana, és uma pintora naïf. Não precisas de estudar nem de te deixar influenciar por teorias que possam modificar a tua essência. Por exemplo, não precisas de aprender a desenhar uma mão com precisão; basta sugeri-la no contexto da obra.

à esq., obra "Elisa" óleo sobre tela 70 x 50 cm, de 2011 e acima, obra "Mendiga", óleo sobre tela 50 x 40 cm, de 2010

Seguindo essa orientação, Ana começou a apresentar as suas obras noutros espaços culturais. O Museu de Arte Moderna, por exemplo, pediu-lhe três quadros para integrar o seu acervo. Mais tarde, participou numa exposição no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, onde apresentou 25 quadros, dos quais nove foram vendidos. Este evento abriu-lhe portas num espaço desejado por muitos artistas consagrados, sem que tivesse sequer planeado esse caminho. Além disso, doou quadros para o Museu Internacional de Arte Naïf.

Os seus quadros naïf retratavam sentimentos, histórias imaginadas a partir de notícias e experiências, com as mulheres como protagonistas principais. No entanto, um dia, durante uma entrevista, ao ser apresentada como “artista naïf”, sentiu-se desconfortável e limitada. Ana queria explorar novas possibilidades, experimentar novos ares. E, mais uma vez, mudou sua trajetória: passou a dedicar-se à arte abstrata.

Abaixo, o quadro sem título, de 2021, acrílica sobre tela, de 1,20 cx 1,0 m. 

A transição para a arte abstrata

Parece fácil? Nem tanto, como esclarece:

–  A transição de um estilo para outro não é tão simples. Parece que os teus braços estão amarrados em uma tira e tens um espaço limitado. Eu queria soltar tudo e sentia uma vontade imensa de fazer como Pollock (o artista americano Jackson Pollock),  no seu imenso galpão. No Brasil, até tinha espaço, mas em Portugal isso tornou-se complicado.

Outro desafio foi o domínio das cores, um dos seus elementos de inspiração mais fortes.

— Na arte abstrata, procuro equilibrar as cores para contar uma história e transmitir uma emoção. Errei muito até encontrar um equilíbrio satisfatório. Outra vantagem deste estilo é a possibilidade de sobrepor camadas de tinta, permitindo várias tentativas e novas experiências.

Abaixo, os quadros: Sem título de 2021, acrílica sobre tela, de 70 x 50 cm.  e Sem título, de 2020, acrílica sobre tela, 70 x 70 cm. 

Outras expressões artísticas de Ana

Em 2016, já em Portugal, Ana lançou Acalanto, um livro-disco que reuniu 12 pinturas e canções criadas a partir dos seus poemas, musicados pelo seu irmão caçula, Luís Otávio, e produzidos pelo seu filho, o músico Marcelo Camelo. A coletânea reuniu dez anos de poemas e quadros e foi tema de uma reportagem publicada no jornal O Globo de 08 de maio de 2017:

“A partir da conexão familiar Rio-Lisboa, outros membros do clã aderiram ao projeto, fazendo de Acalanto um verdadeiro álbum de família. O filho mais novo de Ana, o poeta e letrista Thiago Camelo, assina o texto de introdução. A sua mulher, Elisa Menezes, foi responsável pela coordenação editorial. Além de Camelo, em Noite, Mallu Magalhães (Atraente) e Thaís Howat (Lamento), mulher de Otávio, emprestam as suas vozes ao disco.”

Abaixo, foto do jornal e legenda: Os irmãos Ana Camelo e Luiz Otavio falam sobre Acalanto, o livro-disco com poemas e pinturas de Ana e versos musicados por Luiz Otavio Foto: Ana Branco / Agência O Globo.

Ana escolheu dois poemas do livro-disco:

Minha felicidade

da minha felicidade só eu que sei

dos tempos da amarelinha

da roda de bicicleta

das corridas pelo trilho

dos mergulhos pelo mar

da minha felicidade só eu que sei

do vestido amarelo

bordado pela mão

dos bailes com o Chico

do menino e do vadio

da minha felicidade só eu que sei

da viagem até a serra

do frio da madrugada

dos filhos sempre bem-vindos

de todos eles crescidos

da minha felicidade só eu que sei

dos frutos dos meus queridos

dos quadros com sentimento

dos poemas em agonia

das noites sempre acordada

da minha felicidade só eu que sei

Palavra

Palavra jogada ao vento

é como areia

embaça os olhos

arranha o corpo

pequena cicatriz

cai pelo chão

palavra vã

areia vai

Essa é uma das músicas da obra que vale conhecer: Noite

Em 2019, Ana publicou ainda o livro Olhos de Ler, em parceria com o sociólogo e fotógrafo português Sérgio Aires. Licenciado em Sociologia pela Universidade do Porto, Sérgio Aires é consultor e perito nas áreas da pobreza, exclusão e políticas sociais. Ele é também fotógrafo com trabalhos publicados em diferentes meios, como Revista Rediteia, Revista Focus Social, Edições Hacer (Espanha), Amnistia Internacional, entre outras. Sérgio ainda participou com trabalhos em campanhas anti-discriminação e promoção de vários artistas e espectáculos.

O quadro 4 cantos, de arte naif, de 2009, acrílica sobre tela, 1,0 x 1,0 cm , mostra a visão de Ana sobre o mundo com o Cristo Redentor ao centro.

Uma nova fase

Durante o tratamento de cancro do seu marido, em 2019, Ana conheceu Fabiano Cafure, que realizou um filme no seu apartamento em Lisboa. No dia seguinte, Ana e Ernesto partiram para o Brasil. Após dez meses de luta, Ernesto faleceu. Ana decidiu então regressar a Portugal e, por um acaso do destino, aterrou em Lisboa exactamente um ano depois de ter deixado o país.

No seu processo de luto, dedicou-se intensamente à pintura, experimentando técnicas e novas misturas de cores. Atualmente, está a fundir o estilo naïf com o abstrato:

— É um desafio interessante, mas muito difícil. São duas abordagens distintas e, atualmente, utilizo tintas acrílicas para esse processo.

Mãe de três filhos e avó de duas netas, Ana divide o seu tempo entre Portugal e o Brasil. Os seus quadros mais recentes podem ser vistos no Kreatori.

Para conhecer mais sobre o seu trabalho, siga-a no Instagram em:

ana2_amelia

ana_amelia1arte

Lena Miessva

Jornalista & Escritora & Blogger

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Olá, Sou Lena Miessva

Após percorrer várias estradas da vida no Brasil, Lena Miessva inicia um novo caminho em Portugal. Aprendizados nas relações humanas, na comunicação interpessoal e aprimoramento da escrita são seus focos principais nesses tempos de mudanças globais, locais e pessoais.

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