A vila de Nazaré sempre foi uma terra de histórias extraordinárias – das mulheres de sete saias à devoção à santa que atravessou séculos. Hoje, além do seu patrimônio cultural e religioso, tornou-se o epicentro mundial do surfe de ondas gigantes. Entre tradições e adrenalina, Nazaré prova que o passado e o presente se encontram no Atlântico.

Durante 17 anos, tive o privilégio de ver surfistas pegarem onda especialmente no verão brasileiro e assistir a alguns campeonatos na praia de Itamambuca, no litoral norte de São Paulo (Brasil) onde minha irmã Vera e meu cunhado Enrico Rastelli tinham casa. Então, conhecer Nazaré estava nos meus planos para uma das viagens a Lisboa. Lá fui eu, toda feliz, no dia 19 de fevereiro. GPS direcionado para praia do Norte. Ao chegar, por volta das 13 horas, achei o local meio parado. Onde estariam os surfistas que iriam participar do TudorBig Wave Challenge, competição do calendário internacional da WSL (World Surf League), com duração de dois dias, como noticiado pelo jornal Público?
O primeiro dia havia sido na véspera, quando as ondas capricharam! Encontrei uma praia com ondas longe de serem aquelas que tornaram Nazaré a meca do surfe. Sem desanimar, resolvi andar pela areia, perto do mar – na minha avaliação, aquelas ondas não assustariam ninguém… Ledo engano. Depois de meia hora caminhando, aproxima-se um bugre e dois simpáticos guardas com fato (uniforme) típico de guarda costeira me cumprimentam.
Antes de ser gentilmente abordada pelos guardas da praia em bugre.
Toda faceira, já imaginei uma conversa longa… Só que não! Eles alertaram para andar apenas acima das bandeirinhas vermelhas, informaram que o campeonato havia iniciado na véspera e as provas ainda continuariam nos próximos dias. Pena, pois perdi a oportunidade de ver cerca de 20 atletas brasileiros (quase a metade do total de competidores). E ainda ver o surfista Garrett McNamara, que esteve nesse ano em Nazaré, local onde estabeleceu em 2011 o recorde mundial da maior onda já surfada, de 30 metros.
Então, ver as competições de surfe em Nazaré ficaria para uma próxima visita, mas a viagem não estaria perdida! Como costumo fazer em minhas viagens e passeios em Portugal, aproveitei para conhecer a vila de Nazaré, sede do município de mesmo nome no distrito de Leiria. Ali residem cerca de 14.900 habitantes em 82,43 km² de área. Com o movimento gerado pelos campeonatos especialmente no inverno, novos bairros têm surgido, como Urbisol ou Rio Novo, além dos três antigos povoados Pederneira, Sítio da Nazaré e Praia da Nazaré.


Nazaré era denominada inicialmente como Pederneira, e teve foral (reconhecimento real) em 1514 por D. Manuel I. Ainda ali estão os antigos Paços do Concelho, o pelourinho, a igreja Matriz de nossa Senhora das Areias e a igreja da Misericórdia, como testemunhos da sua história. Ao longo do século XX, o local voltou-se para o turismo e hoje é considerado um dos primeiros pontos de interesse turístico internacional em Portugal.

A barata diz que tem sete saias de filó…
No Brasil, quem foi criança nas décadas de 1960 (e até hoje, pois a música infantil permanece cantada nas rodas infantis!), lembra da letra que diz que a “barata diz que tem sete saias de filó”… Se na letra da música, “é mentira da barata”, no caso das antigas mulheres de Nazaré, ter sete saias (e não leves como o filó), era tradição.
A explicação não consensual diz que o hábito está intimamente ligado à espera das nazarenas pelos maridos e filhos, da volta da pesca, na praia.
Sentadas no areal, passavam horas em vigília. Usavam as várias saias para se cobrirem, as de cima para proteger a cabeça e ombros da maresia e as restantes para tapar as pernas.
Essas mulheres atraíram a atenção do realizador (diretor) de cinema e fotógrafo Stanley Kubrick e do fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson, que documentaram o dia-a-dia do povo nazareno.


As mulheres e os pescadores de Nazaré fotografos por Kubrick
As fotos foram impressas entre 1945 e 1950, quando Kubrick lançou-se em uma onda de trabalhos únicos, onde procurava a espontaneidade do que retratava, em seus 20 anos de idade. Em 1948, deslocou-se para Portugal para fotografar como Portugal havia escapado ileso ao aparato da Segunda Guerra Mundial para a revista Look. E foi em Nazaré que coletou o máximo de testemunhos, não só registrando os locais, mas também os utensílios e as pessoas e seus semblantes e trajes. Algumas dessas fotos estiveram em exposições internacionais e motivaram outros fotógrafos como Henri Cartier-Bresson e Edouard Boubat, a fazerem de Portugal o alvo das suas objetivas.


O trabalho de Kubrick atraiu outros fotógrafos para Portugal


Henri Cartier-Bresson foi um dos que se encantaram com as mulheres e as cenas em Nazaré
A veneração da santa que viajou por séculos
O nome “Nazaré” surge por estar ligado à lenda de Nossa Senhora de Nazaré em sua origem como aldeia dedicada a pesca. E vale conhecer a lenda. Dom Fuas Roupinho, alcaide do castelo de Porto de Mós, perseguia um veado em sua caçada, e em meio a nevoeiro, deu-se conta que estava no topo da falésia à beira de precipício. Rogou então em voz alta: Senhora, valei-me!
Nesse momento, o cavalo estancou e ficou as patas no penedo rochoso, salvando ambos de uma queda de mais de cem metros (vamos combinar que o cavalo iria parar por instinto…). Naquele local, havia uma gruta onde já se venerava uma imagem da Virgem Maria e o menino Jesus. Em agradecimento, manda erguer a Ermida da Memória, para aí ser exposta à veneração dos fiéis a milagrosa imagem.
Ao trabalharem na gruta para erguer a ermida, os pedreiros encontraram um cofre em marfim com relíquias e um pergaminho que as identificava como de posse de São Brás e São Bartolomeu , relatando a história da pequena imagem esculpida em madeira, policromada, representando a Santíssima Virgem Maria sentada num banco baixo a amamentar o Menino Jesus. O pergaminho ainda dizia que a imagem terá sido venerada desde os primeiros tempos do Cristianismo em Nazaré, na Galileia, terra natal da Virgem Maria. Diz a lenda que terá sido esculpida por São José e depois recebeu uma pintura por São Lucas.

“Imagem de Nossa Senhora de Nazaré que trazida de Merida no ano de 714, esteve esconidida durante 468 anos, nas rochas deste promontório, e a partir de 1.182, vem recebendo contínuas homenagens da Alma Portuguesa. Saudemo-la com todo o afecto de filhos! Confiemos no seu poder de Raina e no seu amor de Mãe!” – texto do cartão ao lado da imagem de madeira que mostra uma mãe sentada e amamentando seu filho.
Abaixo, imagem do teto onde encontra-se a santa e dos azulejos da sacristia.



A verdade é que segundo registos, no século V, o monge grego Ciríaco transportou a imagem até o mosteiro de Cauliana, na Espanha. Em 711, na batalha de Guadalete, as forças cristãs fugiram desordenadamente para norte. O rei cristão derrotado Dom Rodrigo chegou ao mosteiro e diante do risco da invasão muçulmana, fugiu com um dos monges para o litoral atlântico levando a muito antiga imagem venerada e já com fama de muito miraculosa.
Além da imagem da Virgem levaram o cofre com as referidas relíquias. O monge instalou-se na pequena gruta com o baú e a imagem da santa que só mudou de lugar em 1377 para a igreja que a abriga. O Santuário de Nossa Senhora de Nazaré foi erguido no século XIV na ida do rei Dom Fernando em peregrinação à Senhora de Nazaré.
Pode ser lenda, mas eu que estive pertinho da santa, não duvido muito da sua idade… Para ver a imagem, paguei um euro e no percurso até a imagem, passei pela sacristia, que impressiona pela quantidade e qualidade das obras de arte que a compõem, num espaço relativamente reduzido.
Os seus corredores são cobertos com azulejos azuis e brancos, de figura avulsa, datados de 1714 e da autoria do mestre português António de Oliveira Bernardes com destaque para o painel alusivo a “Assunção da Virgem”, com símbolos da iconografia mariana, no teto do corredor do lado esquerdo, de sua autoria. Ainda há marcas registrando a devoção dos reis à Virgem de Nazaré como o escudo nacional no teto.
Depois subi algumas escadas estreitas e pude ver bem de perto a imagem da santa, cuja devoção era também grande entre os descobridores como Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, que ali foram antes e depois de suas viagens.
Os dois nortes se encontram
Há réplicas da imagem de Nossa Senhora de Nazaré em várias igrejas. Uma delas fica em Belém do Pará, na Basílica de Nazaré, a primeira basílica a ser erguida no norte do Brasil e um dos ícones mais significativos que mostram a relação do povo paraense com a Virgem de Nazaré.
É ali que se celebra o Círio de Nazaré – uma das maiores romarias do mundo. Acontece anualmente desde 1793, no segundo domingo de outubro, reunindo atualmente cerca de dois milhões de pessoas. Essa devoção é um legado português, originado na vila de Nazaré que a celebra em 8 de setembro. O Círio de Nazaré foi reconhecido em 2004 como patrimônio cultural brasileiro e em 2013 foi declarado pela UNESCO um patrimônio cultural da humanidade.
Entretanto, há outras edições do Círio de Nazaré na região norte do Brasil, em Macapá, no Amapá; em Rio Branco, no Acre e em Manaus, no Amazonas. Com certeza, a Basílica será um dos pontos turísticos da COP-30, a Conferência das Partes, o maior evento global para discussão e negociações sobre as mudanças do clima que será realizada em Belém entre 10 e 21 de novembro desse ano.

Interior da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré em Belém, no Pará (Brasil).

Praia Grande, em Belém, no Pará.
E no inverno do ano que vem, volto para Nazaré para ver o campeonato, com certeza!
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