Conheça o primeiro museu de arte cristã contemporânea no Brasil, que fica em Mato Grosso. Um espaço que une fé, arte e identidade no coração do agro.
Antes de continuar, um convite ao leitor: para compreender este texto, talvez seja preciso suspender preconceitos sobre as manifestações da fé — seja enquanto mensagem espiritual, seja enquanto testemunho inscrito na arte contemporânea.
Quando soube que viajaria em trabalho ao Mato Grosso, um amigo insistiu: “Tens de conhecer Aline Bortoli.” Apresentações feitas por WhatsApp, encontro marcado para o final de janeiro, sob o calor intenso do Centro-Oeste brasileiro.
Assim conheci o Museu Sic Bartão, fundado por Aline Bortoli — apresentado como o primeiro museu dedicado exclusivamente à arte cristã contemporânea no mundo.
O museu está instalado numa propriedade do grupo de agronegócio Bom Futuro, criado pelos seus pais, Zeca e Marina Bortoli, com outros familiares. Atualmente, o grupo é gerido pela segunda geração e possui uma área plantada de cerca de 680 mil hectares. Ao lado do museu, encontra-se a Natter, empresa da qual Aline é sócia, dirigida pelo seu irmão Rafael, com aproximadamente 60 mil hectares de área cultivada.
O contraste é imediato: no coração do agro brasileiro, nasce um espaço dedicado à arte cristã contemporânea.
Arte cristã contemporânea: leveza em vez de culpa
À data da visita, o museu apresentava a exposição Os Improváveis, dos artistas Edinelson Santos e Luciano Maker, inspirada em cinco narrativas bíblicas. Santos, antigo chacreiro de igreja e autodidata, explora a tridimensionalidade — quadros que parecem sair da moldura. Maker trabalha sobretudo a escultura em madeira.
À porta, estava Bortoli, uma jovem com longos cabelos louros, olhos verdes expressivos, dona de uma certa beleza entre o agreste e o urbano. Publicitária, é casada com Jules e mãe de Kael, Éron e Luke. Ela abre a conversa com convicção ao falar sobre propósito:
– Vai perceber que este museu também é improvável. Seria mais fácil nascer em um centro cultural como São Paulo. Mas nasceu numa das últimas fronteiras agrícolas do país. Só que existe um propósito em tudo. Após me formar, constatei a carência de comunicação no agro. Temos enormes distâncias físicas e havia um desconhecimento sobre quem somos, qual a nossa identidade. E se você não tem a sua identidade fortalecida, o que os outros dizem sobre nós pesa demasiado.
Paralelamente, iniciou um percurso espiritual mais íntimo e não marcado pela culpa ou penitência religiosa. Essa transformação levou-a a questionar a forma como a religião é frequentemente representada na arte — associada ao sofrimento, à opressão, à morte.
E decidiu propor outra narrativa dentro da arte cristã: uma arte que testemunha, contemporânea, com camadas e aberta à interpretação, como conta:.
– Não queria o Jesus na cruz como símbolo central do sofrimento. Queria falar de Deus de forma contemporânea.
Um movimento cristão contemporâneo no coração do Brasil
Em 2018, nasceu oficialmente o museu, localizado na Rodovia Helder Cândia, em Cuiabá. Um espaço de exposições e diálogo, onde artistas são convidados a expressar a fé com liberdade criativa.
A curadoria contou com o apoio do filósofo português Paulo Pires do Vale, comissário do Plano Nacional das Artes desde 2019. Defensor da cultura como experiência de transformação e proximidade com os cidadãos, forneceu curadoria para estruturar a visão do museu.
Bortoli recorda:
– Não sabia se seria galeria, museu ou espaço cultural. Sabia apenas que não seria um projecto financeiro — isso já estava assegurado no agro. Este espaço teria de cumprir um propósito. O único compromisso exigido aos artistas seria a autenticidade com a mensagem. Não quero saber se a ‘sua carteirinha’ está escrito católico, evangélico ou outra. Eu só quero que ele abra o coração e trabalhe com sua verdade. Assim, a arte cristã apresentada no museu não se prende a uma confissão específica. As exposições renovam-se a cada seis meses, revelando novos nomes da cena cultural de Cuiabá.
Empoderamento feminino e identidade no agro
Bortoli pertence a uma geração que testemunhou o fortalecimento do papel feminino no mundo empresarial rural. Assim, antes da criação do museu, refletiu sobre seu papel e sua trajetória familiar em que seu pai e tios fizeram história no agro brasileiro:
– Percebi que poderia abrir um novo caminho. Afinal, ninguém impede as mulheres de chegarem aonde querem. E como tudo na vida é uma construção – família, empresa, negócio, passei a me dedicar a esse movimento cristão contemporâneo em que fui descobrindo artistas, criando um movimento para expressar a fé pela arte.
Na época, ela e suas primas tentavam – como se diz em comunicação – ‘apagar o fogo’ – vindo de notícias negativas sobre o agro e pensaram em um outro caminho que não fosse apenas reativo:
– Percebemos que faltava uma base para mudar a percepção externa sobre o agro. E criamos Instituto FarmMun, o mundo da fazenda inserido em um movimento que explica o agro a estudantes, desenvolve e inspira artistas a abordarem o agro por meio de concursos com premiações.
Um das iniciativas é a realização de concursos culturais com a descoberta de novos artistas.
A exposição das obras criadas em 2025 no 3º Concurso Cultural Arte Raiz está montada em área do auditório da Natter. O concurso abordou a temática do milho para destacar o grão como elemento simbólico da cultura agro nacional e revelar talentos da arte brasileira. Foram recebidas obras produzidas por técnicas manuais, como pintura, escultura, colagem e outras linguagens artesanais de artistas maiores de 18 anos de outros estados além de Mato Grosso. Esta edição contou com o patrocínio da Ambios, empresa brasileira do agronegócio.
Arte cristã em diálogo com o mundo
Aline integra um movimento internacional de empresários cristãos há mais de uma década. Entre os integrantes desse movimento, estão Dallas Jenkins, criador da série The Chosen e Harold Cronk, realizador do filme Deus Não Está Morto
A sustentabilidade do museu conta com o apoio da Natter e com um modelo de subscrição chamado “Museu pela Cidade”, em que obras do acervo são disponibilizadas para casas, escritórios e empresas, acompanhadas de conteúdos digitais explicativos. Atualmente, estão presentes em mais de 70 espaços de Cuiabá como supermercados, empresas, escolas.
Quando a fé se torna linguagem artística
O Museu Sic Bartão é, em si mesmo, uma provocação.
Em um tempo em que a religião é frequentemente remetida para o espaço privado ou tratada com ironia nos circuitos artísticos, surge uma proposta de arte cristã contemporânea que não pede licença — apenas autenticidade.
Talvez o gesto mais disruptivo não seja a fé. Mas o cuidado com que ela é apresentada.
E talvez seja isso que torna este museu improvável e necessário.
Para visitar o museu, é preciso agendar pelo Instagram ou pelo seu LinkedIn.



