Descobri Svetlana Alexievich com dez anos de atraso — e talvez tenha sido o tempo certo. Entre idas às bibliotecas de Vila Nova de Gaia e do Porto, encontrei A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, um livro que não fala de batalhas, mas de mulheres. Mulheres que lutaram, sofreram e silenciaram durante décadas. Neste mergulho pela obra da escritora laureada com o Prêmio Nobel de Literatura, revisito as vozes femininas da Segunda Guerra Mundial que a história oficial preferiu não ouvir.
A ida às bibliotecas de Vila Nova de Gaia e do Porto tem sido um hábito saudável e gostoso – passear, ver livros, escolher e devolver após 30 dias – é bom demais!
Nessas procuras, descobri Svetlana Aleksandrovna Aleksiévitch, escritora laureada com o Prêmio Nobel de Literatura em 2015 por suas escritas que deram voz a experiências humanas profundas e muitas vezes ignoradas, especialmente em contextos históricos difíceis, a partir de seu primeiro livro A Guerra não tem Rosto de Mulher”. Registo aqui a ‘mea culpa’, pois somente agora a conheci tanto pelo seu primeiro livro quanto pelas entrevistas recentemente concedidas em Portugal.
Um mergulho nas vidas de mulheres de outras guerras
Não sei se foi a vinda para Portugal e, portanto, estar relativamente mais perto de países como a Polônia (terra de meus avós), a Ucrânia e a gigante Rússia e seus tentáculos para os países eslavos, mas o fato é que tenho lido muito sobre guerras, liberdade, personagens e histórias de ousadia e coragem. Entretanto, esse não é mais um livro sobre guerras. É sobre mulheres. As vozes femininas na II Guerra. Aquelas que se calaram antes e depois dos combates. Então, vamos conhecer (ou, para quem já conhece, rever) a escritora Svetlana, que demorou mais de uma década até ter seu primeiro livro publicado?
Quem é Svetlana Alexievich, Prêmio Nobel de Literatura
Filha de dois professores – o pai bielorrusso e a mãe ucraniana, Svetlana nasceu em Stanislav, hoje Ivano-Frankivsk, na Ucrânia, em 1948, e cresceu na Bielorrússia. Estudou jornalismo na Universidade de Minsk a partir de 1967 e depois trabalhou no jornal e na escola em Beresa, na província de Brest. Durante os estudos, debateu-se entre a tradição familiar de trabalhar no ensino ou no jornalismo. Mas o jornalismo ganhou e, depois, muito mais, ganhou a literatura e ganhamos nós, leitores vorazes de boas obras.
Cresceu em uma aldeia e, desde menina, viu que as pessoas acreditavam no ideal soviético, criado a partir do ideal do comunismo: “Quando comecei a trabalhar como jornalista e a viajar, ao conversar com muitas pessoas, fui mudando e, no entanto, creio que só me tornei realmente livre ao regressar da guerra no Afeganistão. Vi como as pessoas sofriam, matavam e morriam. Como uma ideia pode matar”.
Foi o escritor bielorrusso Ales Adamovich que de alguma forma a levou para a literatura em um gênero que definiu como “novela coletiva” ou “novela-evidência”, em que é usada a técnica de colagem, justapondo testemunhos individuais, com o que consegue aproximar-se mais à substância humana dos acontecimentos. E ela usou esse estilo pela primeira vez no seu livro A Guerra Não Tem Rosto de Mulher (escrito em 1983), em que, a partir de uma série de entrevistas, mostra as mulheres eslavas que participaram na Segunda Guerra Mundial.
O choque entre memória, silêncio e heroísmo
Segundo conta no primeiro capítulo, depois que iniciou os primeiros encontros para conduzir as entrevistas com mais de 200 jovens russas que participaram da Segunda Guerra Mundial pelo Exército Vermelho, veio o espanto:
– “As profissões militares dessas mulheres eram enfermeiras, franco-atiradoras, metralhadoras, comandantes de canhões antiaéreos, sapadoras, mas hoje são contabilistas, técnicas de laboratório, guias, professoras… Os papeis, lá e cá, não coincidem. Parecem estar a lembrar-se não de si próprias, mas de outras raparigas quaisquer. Hoje, ficam surpreendidas com elas próprias. A história ‘humaniza-se diante dos meus olhos”.
Censura, verdade e a reescrita da história oficial
Em 2002, reescreveu o livro e incluiu novos trechos com uma força que, até então, a censura não lhe tinha permitido mostrar e alguns diálogos com o censor, que disse: “Mas quem é que vai combater depois de um livro destes? A senhora humilha a mulher com um naturalismo primitivo. A mulher heroína. Faz dela uma mulher comum. Uma fêmea. As nossas mulheres são santas.
Em outro diálogo entre censor e autora:
Censor: Sim, custou-nos muito a Vitória, mas a senhora deve ir à procura de exemplos heroicos. São às centenas. E a senhora mostra a sujidade da guerra. Assim como escreve, a nossa Vitória é aterradora… Aonde quer chegar?
Svetlana Alexievich: À verdade.
Censor: Deve pensar que a verdade são as coisas da vida. O que está na rua. Debaixo dos pés. Ela é para si tão baixa. Tão terrestre. Não, a verdade são as coisas que sonhamos. Como queremos ser!
Após cerca de quatro anos de entrevistas e pesquisas, o livro foi concluído em 1983 e teve a sua primeira versão reduzida na revista literária Oktyabr em fevereiro de 1984. A primeira edição foi publicada em 1985 na então União Soviética, durante a Perestroika.
Traduzida em 22 línguas, a sua obra, largamente reconhecida na área da não-ficção, foi premiada com o Prémio da Paz Erich Maria Remarque, da Alemanha, em 2001, e o Prémio Nacional da Crítica, dos Estados Unidos, em 2006.
Uma jornalista revolucionária ganha o Prêmio Nobel de Literatura
Jaume Bonfill, editor de Vozes de Chernobil, disse para o jornal El País em 2015: “O [premio] Nobel premiou uma jornalista revolucionária. Svetlana Alexievich vai além da crônica habitual, de livros de não ficção. Traz depoimentos em que as pessoas dão sua versão sobre os diferentes dramas da antiga URSS. Faz uma nova abordagem, não é exagerada nem sensacionalista. É a voz humana sem restrições.”
A atribuição do Nobel da Literatura a Svetlana Alexievich representa uma exceção, dado que a Academia Sueca raramente premiou um autor que escrevesse predominantemente não-ficção. Tal aconteceu apenas com Theodor Mommsen (1902), Bertrand Russell (1950), Winston Churchill (1953), Jean-Paul Sartre (1964) e Elias Canetti (1981).
Outros livros que compõem o seu projeto literário Vozes da Utopia são: O Fim do Homem Soviético (ed.2015); Vozes de Chernobyl — História de um desastre nuclear (ed. 2016); Rapazes de Zinco — A geração soviética caída na guerra do Afeganistão (ed. 2017); As Últimas Testemunhas — Cem histórias sem infância (ed. 2018). Está a escrever o seu sexto livro, que ainda não tem título em português, mas poderá chamar-se, numa tradução livre do russo, “O Fim do Homem Vermelho”.
Em outubro, Svetlana esteve em Portugal para participar do Fólio – Festival Literário Internacional de Óbidos, com palestras, debates e conversas com leitores e outros escritores e concedeu várias entrevistas.
Escrever sobre a guerra, o amor e a condição humana
Segundo a reportagem de Isabel Coutinho no jornal Público, “nos anos que se seguiram a ver-se distinguida com o Prémio Nobel da Literatura, achou que nunca mais iria escrever sobre guerras. Várias vezes referiu, como na Festa Literária Internacional de Paraty, em 2016, que estava a escrever sobre o amor. E aos 77 anos voltou a falar desse projeto “sobre o amor”, com “histórias contadas por homens e mulheres”, e também de um outro sobre a velhice esse momento em que começamos “a ouvir a escuridão”, “a sentir que estamos a aproximar-nos do fim”.
Concedeu ainda uma entrevista à revista E, a revista semanal do jornal Expresso (ed. 2766). Aqui, partilho alguns trechos para conhecerem melhor a autora:
– Sobre escrever sobre a guerra e a morte: “O ser humano é maior do que a guerra. (…) Devo ser mais abrangente: escrever a verdade sobre a vida e a morte em geral, e não apenas a verdade sobre a guerra. Fazer a pergunta de Dostoiéski: quantos homens há no homem, e como defender esse homem em si mesmo? Não há dúvida de que o mal é sedutor. É mais sofisticado do que o bem. Mais atrativo. (…) Agora compreendo a solidão do homem que regressou de lá. Como de outro planeta ou do Além. Possui o conhecimento que os outros não possuem e que só se pode obter lá, perto da morte. Quando tenta transmitir algo por palavras, domina-o a sensação de catástrofe. O homem emudece. Quer contar, os restantes gostariam de compreender, mas são todos impotentes.”
– Sobre o tempo de pesquisa que demora de 7 a 10 anos para escrever um livro: segundo ela, “para escrever o tipo de livro que eu escrevo, é preciso não só recolher muitas histórias, mas reunir aqueles pequenos grãos de arte e de literatura que estão fechados em cada um de nós. Um pormenor pode fazer um livro. E encontrá-lo leva tempo”.
– Sobre a opção de escrever sobre a realidade, ela disse que “a vida é mais interessante do que a ficção, embora a ficção também possa ser ótima. O mundo é extremamente acelerado hoje em dia; as coisas estão sempre a acontecer e refletimos pouco sobre elas. Por isso é importante falar com as testemunhas dos acontecimentos. O principal herói é o testemunho.
– Sobre ouvir as mulheres e sua presença na II Guerra: “Desde a infância, os homens aprendem a amar a guerra. Sabem o que fazer, brincam com armas e sabem que quando crescerem farão o serviço militar ou defenderão o país. (…) A mulher é quem dá a vida, e quando as mulheres falam sobre a guerra não o fazem heroicamente, lembram-se de coisas nas quais os homens nem reparam, como o sofrimento dos pássaros ou de outros seres vivos”.
Em seu exílio, ela já viveu na Itália, França, Suécia. Atualmente, vive na Alemanha: “Infelizmente tive de sair de casa, na Bielorrússia. Infelizmente os meus manuscritos, milhares de páginas, ficaram lá. Não consegui trazê-los [para o exílio]”.
Sobre o livro Vozes de Chernobyl, consolidei alguns trechos, para que não esqueçamos do que houve e, quem sabe, consigamos evitar a repetição daquela tragédia no futuro:
“Nos primeiros dias após o acidente, desapareceram das bibliotecas os livros sobre radiação, sobre Hiroxima e Nagasáqui, mesmo sobre raios X. Correu o boato de que isto fora feito por ordem das autoridades, ‘para não semear o pânico’. Para a nossa própria tranquilidade. (…) Nos primeiros dias… As sensações eram mistas… Lembro‑me de duas mais fortes: a sensação de medo e a sensação de ressentimento. Aconteceu tudo, e não há nenhuma informação: as autoridades remeteram-se ao silêncio; os médicos não dizem nada. Não há respostas. As autoridades distritais esperavam instruções das autoridades regionais, as regionais esperavam instruções de Minsk, e Minsk esperava instruções de Moscovo”. (…) “Nos primeiros dias, os nossos filhos eram evacuados de noite para que menos gente pudesse vê-los. As autoridades ocultavam essa desgraça, dissimulavam-na. Mas as pessoas chegavam a saber na mesma. Vinham ter com os nossos autocarros na estrada, traziam-nos frascos de leite, pãezinhos acabados de fazer. Como na guerra… Será comparável com outra coisa qualquer?”
As mulheres que ficaram caladas durante décadas
E para terminar, duas homenagens minhas.
A primeira ao reproduzir um depoimento de uma das mulheres ouvidas:
“Quero falar… Falar! Desafogar‑me! Até que enfim, alguém quer ouvir‑nos. Ficámos caladas tantos anos, mesmo em casa. Dezenas de anos. No primeiro ano depois de regressar da guerra, falava e falava. Ninguém me ouvia. Calei‑me… Ainda bem que veio. Estive este tempo todo à espera de alguém, sabia que alguém havia de aparecer. Devia aparecer. Eu era muito nova. Tão nova. É pena”.
A segunda, cito os nomes dessas mulheres russas que lutaram na II Guerra Mundial e ficaram caladas até serem ouvidas por Svetlana. Os apelidos (sobrenomes) são muitos. Entretanto, estão nomeadas como devem ter ouvido em sua família ao regressarem:
Aglaia | Albina Aleksandra Anastassia Anna Antonina Appolina | Bella | Efrossínia |Ekaterina | Elena | Evguánia | Fiokla | Galina | Iadviga | Irina |Klara | |Kláudia | Ksénia | Larissa | Lilia | Liubóv | Liudmila | Lola | Maria | Nadejda | Natalia | Nina | Nonna | Olga | Polina | Serafina | Sofia | Stanislava | Taíssia | Tamara | Tatiana | Uliana | Valentina | Vassilissa | Vera | Zinalda



