O azulejo é uma das expressões artísticas mais marcantes de Portugal — um verdadeiro símbolo da cultura lusitana que combina cor, tradição e identidade. Entre os locais onde essa arte ganha vida, destaca-se o Museu Nacional do Azulejo (MNAz), em Lisboa, um espaço único que guarda séculos de história e criatividade portuguesa.
Visitei o Museu do Azulejo (MNAz) há alguns meses, com o meu sobrinho Octávio e a sua esposa Alessandra, que vivem perto de Lisboa. Tivemos sorte: o museu, instalado no antigo Convento de Nossa Senhora da Madre de Deus, poderá ser temporariamente fechado para obras de requalificação da fachada, das coberturas e da recuperação estrutural, inseridas no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) de Portugal.
O PRR de Portugal e a requalificação do Museu do Azulejo
O concurso internacional para a primeira fase das obras do MNAz foi lançado em março, com um investimento estimado de 2,85 milhões de euros e prazo de execução de 255 dias, segundo o Ministério da Cultura. Esta intervenção inicial incidirá na fachada e nas coberturas; uma segunda empreitada, focada na recuperação estrutural, será lançada em seguida.
Mas, afinal, o que é o PRR?
O Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) é um dos mais importantes instrumentos públicos em execução em Portugal. Financiado em grande parte por fundos europeus no âmbito do NextGenerationEU, o PRR mobiliza mais de 16 mil milhões de euros (bilhões de euros, no Brasil) para recuperar a economia pós-pandemia e preparar o país para os grandes desafios da próxima década.
O plano estrutura-se em 22 componentes, agrupadas em três grandes dimensões estratégicas:
- Resiliência – inclui saúde, habitação, cultura, inovação e coesão social, com forte apoio à qualificação e à modernização económica.
- Transição Climática – aposta em mobilidade verde, energias renováveis, reabilitação energética e bioeconomia.
- Transição Digital – promove a capacitação digital de trabalhadores, PME e serviços públicos.
Além de reabilitar património histórico, o PRR já transformou áreas como digitalização de empresas, habitação acessível e transição energética, tornando-se um motor de modernização do país.
A história do azulejo em Portugal: das paredes ao património
A história do azulejo português está nas paredes do MNAz — literalmente. O museu conserva peças desde o século XV até à atualidade, mostrando a evolução artística e técnica desta forma de arte. A sua missão é salvaguardar, conservar e divulgar a azulejaria portuguesa, uma tradição que mistura arte, fé e engenho.
Durante a visita, é impossível não se deslumbrar com o painel que representa Lisboa antes do terramoto de 1755, um testemunho visual de uma cidade desaparecida. O painel desenvolve-se ao longo de 23 metros de comprimento numa das paredes do claustro, revelando a capital ao longo do rio, entre Algés e Xabregas, com presença de igrejas, palácios e equipamentos urbanos existentes antes do terramoto.
Há também o diálogo entre o azul do azulejo e o dourado da talha barroca, uma combinação que deu origem à expressão “ouro sobre azul”.
O Convento da Madre de Deus, fundado em 1509 pela rainha D. Leonor, é o cenário perfeito para esta viagem no tempo. A coleção deste museu abrange a produção azulejar desde a segunda metade do século XV até à atualidade, reunindo, além do azulejo, peças de cerâmica, porcelana e faiança dos séculos XIX e XX.
Em 2023, o Museu Nacional do Azulejo foi o museu mais visitado de Lisboa, com 276 mil visitantes de 55 nacionalidades — sobretudo franceses, brasileiros e alemães.
A arte barroca: “uma igreja toda cosida em ouro”
No final do século XVII, o Rei português D. Pedro II (não confundir com o imperador brasileiro D. Pedro II) mandou reconstruir o mosteiro, revestindo a igreja com azulejos holandeses, altares em talha dourada e pinturas a óleo. O resultado foi um cenário tipicamente barroco, de grande emoção estética e espiritual.
O Terramoto de 1755 provocou alguma ruína no edifício, em particular a igreja com o desabamento de algumas paredes com o coro, a destruição do altar-mor, a queda de pinturas do tecto da igreja e do coro-alto. Foram então custeadas novas obras e restauro com o púlpito da igreja em talha dourada. O conjunto produzia nos fiéis grande emoção devido à decoração total dos espaços, característica do barroco, e à riqueza dos materiais com o azul dos azulejos, o dourado da talha e a policromia das pinturas a óleo.
Do convento ao museu: um espaço de memória viva
A ligação do edifício ao património nacional consolidou-se no século XX, quando passou a estar sob a tutela do Museu Nacional de Arte Antiga. Em 1980, ganhou autonomia e tornou-se oficialmente o Museu Nacional do Azulejo.
Hoje, o espaço inclui salas de exposições temporárias, biblioteca, loja e restaurante, oferecendo uma experiência completa e acessível a todos os públicos.
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Convivemos com o azulejo há centenas de anos
O azulejo é uma peça de cerâmica de pouca espessura, geralmente quadrada, em que uma das faces é vidrada, resultado da cozedura de um revestimento geralmente denominado como esmalte, que se torna impermeável e brilhante. Esta face pode ser monocromática ou policromática, lisa ou em relevo. Os temas que vimos no Museu variam entre os relatos de episódios históricos, cenas antigas, momentos da história religiosa e uma extensa gama de elementos decorativos.
O azulejo é uma arte que identifica Portugal. O seu uso, sem interrupção nos últimos cinco séculos, distingue-se do modo como foi entendido noutras culturas. Portugal assumiu-se como um importante suporte para a expressão artística nacional dessa peça ao longo de mais de cinco séculos, por ser o azulejo de baixo custo e ter muitas possibilidades de qualificar esteticamente um edifício.
O Museu Nacional do Azulejo é o ponto de partida para conhecer este património que pode ser visto em todo o país, aplicado nos espaços para que foi concebido.
Segundo o texto no Museu, “em aplicações monumentais como as efectuadas no Palácio Real de sintra ou na Sé Velha de Coimbra, os ladrilheiros portugueses reinventaram as matrizes sevilhanas de aplicação de azulejos, criando composições de grande efeito visual, em perfeita sintonia com as arquitecturas”.
Então, quando visitar Lisboa, conheça o Museu Nacional do Azulejo. A história o espera!
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