Do Rio Tejo à Baía da Guanabara: a viagem de Sacadura Cabral e Gago Coutinho que uniu Portugal e Brasil na primeira travessia aérea do Atlântico Sul
Em agosto de 2023, numa visita aos meus sobrinhos, que tinham acabado de mudar de São Carlos (São Paulo, Brasil) para Vila Franca de Xira (Lisboa, Portugal), conheci a aventura de Sacadura Cabral, até então apenas familiar para mim como nome de uma rua no centro do Rio de Janeiro, onde vivi e trabalhei, e na Lapa, freguesia (bairro) da cidade de São Paulo, próxima de onde morei durante muitos anos.
Nesse contexto, e no âmbito das comemorações do bicentenário da Independência do Brasil, ocorridas em 2022, o município de Vila Franca de Xira organizou a exposição “Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul”, na Fábrica das Palavras – Biblioteca Municipal. A mostra contou com a curadoria da Comissão Nacional da UNESCO e do Instituto Diplomático.
Artur Sacadura Freire Cabral Júnior e Carlos Viegas Gago Coutinho foram dois destemidos portugueses que marcaram a história da aviação ao realizarem a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, ligando Lisboa ao Rio de Janeiro. Entre os meses de março e junho de 1922 — cem anos após a Independência do Brasil — tornaram-se pioneiros ao unir os continentes europeu e americano pelo céu.
Artur Sacadura Freire Cabral Júnior nasceu a 23 de maio de 1881. Como oficial da Marinha de Guerra, serviu nas então colónias durante a Primeira Guerra Mundial e integrou várias missões de delimitação de fronteiras em Moçambique e em Angola. Foi um dos primeiros instrutores da Escola Militar de Aviação, director dos Serviços de Aeronáutica Naval e comandante de esquadrilha na Base Naval de Lisboa.
Estudou aviação em França, especializando-se em hidroaviões. De regresso a Portugal, em agosto de 1916, foi nomeado piloto instrutor, organizou a aviação marítima portuguesa e, em 1918, tornou-se director dos Serviços de Aeronáutica Naval e, posteriormente, comandante da Esquadrilha Aérea da Base Naval de Lisboa.
A invenção de um instrumento vital para a aviação
Em 1919, demonstrou a viabilidade de uma viagem aérea Lisboa–Rio de Janeiro e foi nomeado para realizar os estudos, seleccionar os melhores materiais e definir o tipo de aeronave para a travessia. Realizou então a viagem Lisboa–Madeira com Gago Coutinho e Manuel Ortins de Bettencourt, com o objectivo de testar métodos e instrumentos.
Sacadura Cabral e Gago Coutinho inventaram um corrector de rumos para compensar o desvio provocado pelo vento e criaram um instrumento de horizonte artificial adaptado ao sextante, que permitia determinar o ângulo ou inclinação dos astros em relação ao horizonte. Esta invenção revolucionou a navegação aérea da época.
Estes dois jovens oficiais da Marinha portuguesa inauguraram um corredor aéreo entre Portugal e o Brasil e, desde então, nunca mais deixámos de nos visitar: portugueses a descobrir as maravilhas cariocas e o sol tropical, e brasileiros a deliciarem-se com o sotaque luso, o esplêndido bacalhau e, claro, os doces de fazer crescer água na boca.
No dia seguinte, alcançaram o arquipélago de São Pedro e São Paulo, já em águas brasileiras. Contudo, o mar agitado causou danos à aeronave, obrigando ao resgate dos aviadores por um cruzador da Marinha Portuguesa, que os conduziu a Fernando de Noronha. Apesar do cansaço provocado pelo voo de 1.700 quilómetros e pela amaragem (pouso) forçada, celebraram a precisão com que localizaram aqueles rochedos em pleno Atlântico Sul, recorrendo exclusivamente ao método de navegação astronómica que haviam criado.
A influência da opinião pública
A aventura foi acompanhada de perto pela imprensa e pela opinião pública portuguesa e brasileira. Face ao grande interesse suscitado, o Governo português enviou um novo hidroavião Fairey, baptizado Pátria. Após a revisão técnica, os aviadores descolaram a 11 de maio.
Contudo, como se costuma dizer, “a maré não estava para peixes” — nem para aviadores —, pois uma avaria no motor obrigou a uma amaragem (pouso) de emergência. Durante nove horas permaneceram à deriva, como náufragos, até serem resgatados pelo cargueiro inglês Paris City.
De regresso a Fernando de Noronha, aguardaram um novo hidroavião, baptizado Santa Cruz. Finalmente, seguiram para Recife, Salvador, Porto Seguro e Vitória, chegando ao Rio de Janeiro a 17 de junho de 1922, com a amaragem nas águas da Baía de Guanabara.
Sacadura Cabral e Gago Coutinho foram entusiasticamente aclamados como heróis em todas as cidades brasileiras onde fizeram escala durante a primeira travessia do Atlântico Sul. Importa ainda sublinhar que foi a primeira vez, na história da aviação, que uma travessia do Oceano Atlântico foi realizada exclusivamente com recurso à navegação astronómica a partir de um aeroplano. Foram 62 horas e 22 minutos de voo ao longo de 79 dias, num total de 8.383 quilómetros. A viagem serviu, ainda, de inspiração para os voos de 1927, realizados por Sarmento de Beires, João Ribeiro de Barros e Charles Lindbergh.
Sempre com sonhos desbravadores
De regresso a Portugal, em 1923, Sacadura Cabral elaborou um projecto de viagem aérea de circum-navegação, que não conseguiu concretizar por falta de meios materiais. Em 1924, convicto de que o Governo não correspondia aos seus esforços para a eficiência da Aviação Marítima, apresentou o seu pedido de demissão, que foi indeferido. Nesse mesmo ano, foi nomeado para estudar uma proposta apresentada ao Governo para o estabelecimento de carreiras aéreas com fins comerciais.
A 15 de novembro desse ano, aos 43 anos, os seus sonhos foram tragicamente interrompidos, ao falecer quando pilotava um Fokker 4146 de Amesterdão para Lisboa, um dos cinco aviões destinados ao seu ambicioso projecto de viagem aérea à Índia.
Obs.: As fotos são da revista National Geographic Portugal, edição Abril de 2022




1 Comentário
Que bom aprender mais sobre Portugal e seus herois!