Encantos brasileiros em trilhas e cachoeiras

Serra da Canastra encanta com sua imponência e típicos sabores

Então, vamos conhecer as trilhas da Canastra?

Viajar cinco horas de carro até Minas Gerais para vivenciar as aventuras de uma turma animada de trilheiros e seus ‘jipes’, e ter o privilégio de conhecer o Parque Nacional da Serra da Canastra e seus cânions tornou especial a minha passagem do feriado de 1º de maio em terras brasileiras.

A viagem com meu sobrinho Christian e seu filho caçula Antônio no veículo Pajero Dakar começou no dia 30 de abril com passagem obrigatória em um gigante hipermercado Atacadão em Alphaville (Barueri-SP) para abastecer o carro de águas, biscoitos e outras guloseimas.  

O destino era São João Batista do Glória, cidade no Estado de Minas Gerais com cerca de 7.700 moradores. A sua economia divide-se entre turismo com pousadas e restaurantes e o comércio de queijos e doces típicos artesanais produzidos na região.

Depois de chegarmos à pousada no centro da cidade e descansarmos um bocadinho, fomos jantar com os cinco casais que se dividiram em duas outras hospedagens – a Vila Craton, planejada para oferecer também experiências de convívio aos hóspedes e passeios na Serra e a simpática Pousada São Francisco Diamante.

Ali, na Vila Craton, experimentei um delicioso queijo Canastra, produzido pela Queijaria Tradição Vilela, oferecido pela Lais Vilela. Por trás de seu sabor, há uma história de bravura e empreendedorismo em gerações de brasileiros. Mas isso será outra história!

No dia seguinte, hora de colocar os veículos nas estradas tortuosas de terra. Lá fomos nós, nas caminhonetes Troller, Pajero Dakar e Pajero Sport. A caminhonete Hillux integraria o passeio no dia seguinte, para Capitólio.

O animado grupo do qual meu sobrinho Christian faz parte começou a trilhar pelo Brasil em dezembro de 2020. O grupo de jipeiros denomina-se “Sujos e Felizes”. Com camaradagem e descontração para enfrentar os “perrengues das trilhas”, eles ficam em contato com a natureza e descontraem-se do estresse. Nesses últimos cinco anos, a amizade tem-se consolidado e eles têm acompanhado o crescimento de meu sobrinho-neto Antônio, que é um parceiro animado do grupo.

A comunicação entre os jipes é feita por rádio e quando os obstáculos são mais difíceis, alguns descem dos carros para conduzir os motoristas – sempre filmando e fotografando para postar no grupo de WhatsApp e ser curtido depois.

Para evitar confusão entre direita e esquerda na hora de orientar diante de enormes buracos e valas, costumam dizer ‘motorista’ ou ‘passageiro’. Às vezes, há uma certa confusão no entendimento de quem está conduzindo o veículo, o que gera certa tensão, quebrada por comentários e risadas.

Christian fazendo as manobras e Antônio integrado no grupo

A deslumbrante Serra que abriga o nascimento do Velho Chico    

Então, se estás a imaginar uma vista deslumbrante e uma profusão de diferentes tons de verde impactante, chegou quase perto do que a pessoa sente diante da Serra da Canastra. Então, vamos à sua apresentação?

O Parque Nacional da Serra da Canastra fica no sudoeste do estado de Minas Gerais e foi aberto em 1972. Tem aproximadamente 93 mil hectares demarcados (o que equivale a 110 mil campos de futebol tamanho oficial) e abrange parte do território de seis municípios, dos quais os mais conhecidos são Capitolio (em função dos cânions e lago de Furnas) e São João Batista do Glória. Ali estão dois maciços: a Serra da Canastra e a Serra das Sete Voltas, e no meio há o Vale dos Cândidos. As altitudes variam entre 900 e 1.500 metros, com um relevo acidentado e uma vegetação formada por campos rupestres, algumas áreas de cerrado e matas ciliares. Ao percorrer as trilhas, chegamos a pontos com vistas panorâmicas de tirar o folego!

A grandiosidade da Canastra e seus encantos
Desafios nas trilhas e a imponência da Serra

Esse santuário natural abriga as nascentes do rio São Francisco, o curso d’água muito conhecido no país que passa por cinco estados brasileiros: Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. Aliás, suas águas formam a divisa natural entre esses dois últimos estados. O São Francisco – conhecido como o Velho Chico – nasce na região que tem o formato de baú ou canastra – cuja palavra deriva do latim ‘cannastra’ que significa cesto. A região abriga tantas nascentes que é definida como uma gigantesca caixa d’água. São mais de 200 cachoeiras em meio a uma vegetação de árvores baixas que marcam a fronteira entre o Cerrado e a Mata Atlântica.

E tem mais! 

A Serra da Canastra abriga ainda a bacia do rio Paraná, onde nasce o rio Araguari. Foi às margens desse rio que surgiu o garimpo de ouro no século XVIII e permitiu a ocupação do Brasil Central. Com o esgotamento das jazidas de ouro e diamantes, a economia voltou-se para a agropecuária. Ali, os portugueses Machado de Faria e Gonçalves de Morais são reconhecidos como os primeiros exploradores a formar fazendas em uma região fartamente irrigada por diversos cursos d’água, com abundantes fauna e flora. Logo, as terras férteis geraram prosperidade e transformaram-se em rotas de tropeiros, com novas famílias assentadas dedicadas ao comércio e pousadas.  

Portugueses formaram os primeiros povoados

Entre os portugueses, destacou-se a chegada dos irmãos João Francisco, Manoel Francisco e Antônio Francisco, que formaram um povoado conhecido como “Arraial dos Franciscos. Eles ficaram conhecidos como ‘os cabeças’ do lugar, o que gerou o nome “Arraial dos Cabeças”, mais tarde resumido a “Capitólio” que homenageia os três Franciscos em seu brasão de armas. Aliás, foram os portugueses que trouxeram o conhecimento da produção de queijos para o Brasil no tempo colonial.    

E os animais? Bom, confesso que só os vi em imagens de imãs e outros apetrechos para turistas. Não vi nenhum tamanduá-bandeira, lobo-guará ou veado-campeiro, espécies ameaçadas de extinção.

Mas isso é fácil de entender… Se eu fosse uma dessas espécies, só sairia para caminhar durante a semana. Nos finais de semana e feriados prolongados, há centenas de jipes, motocicletas off road e bicicletas percorrendo trilhas e estradas. Então, as 354 espécies de aves e 38 de mamíferos devem aguardar a segunda-feira com certa ansiedade!

A imensidão das águas merece respeito

Depois de sobreviver à intensa primeira experiência em trilhas, o dia seguinte foi reservado para irmos ao Capitólio, destino para percorrer em uma lancha em um passeio de cerca de três horas com paradas nas cachoeiras do Canyon, Lago Azul, Bar da Ilha da Fantasia, Vale dos Tucanos e Cascatinha. As paradas são pequenas marinas com piscinas naturais e bares flutuantes. Lugar ideal para tomar cervejas e outras bebidas geladas, tomar sol e ‘jogar conversa fora’, hábito muito cultivado durante as férias e feriados!

Uma das paradas do passeio, com bar e marina

O passeio, muito bem filmado por Cibele Siqueira. 

O ponto alto do passeio é o Cânion de Furnas, que cerca o Lago e tem uma beleza deslumbrante, admirada pela lancha ou pelo Mirante de Furnas. Ali, é possível ver de perto as paredes de pedra invadidas pelas águas esverdeadas do Lago de Furnas, formado pela represa (alqueva, em Portugal da Usina Hidrelétrica de Furnas.

Agora, mais um bocadinho de história: O Brasil teve uma forte industrialização na metade do século XX e para evitar o colapso energético do País, o governo do presidente Juscelino Kubitschek iniciou a construção em 1958 do reservatório formado pela Usina Hidrelétrica de Furnas.

A obra gerou a desocupação de mais de 35 mil pessoas e perda de terras cultiváveis. Entretanto, o resultado é de uma beleza inquestionável: o colosso de 1.440 km² banha mais de 30 municípios mineiros formando cânions, cachoeiras e piscinas naturais.  A Usina Hidrelétrica de Furnas foi considerada na altura a maior obra da América Latina. O imenso volume d’água viabilizou outras atividades economicamente rentáveis para os municípios ribeirinhos. Minas Gerais passou então a produzir cerca de 15% da produção nacional de peixe e o imenso Lago de Furnas, o maior lago em extensão de Minas Gerais e um dos maiores lagos artificiais do mundo, ganhou o carinhoso apelido de “Mar de Minas” (explicação necessária: Minas Gerais é um dos estados brasileiros que não têm acesso ao mar). 

E não é só! A represa permitiu a chegada dos esportes náuticos, intensificou o turismo e o entretenimento, e atrai constantemente investimentos nos 34 municípios banhados pela represa.

As cachoeiras que calam a alma

Tomar um banho gelado de cachoeira revigora o corpo e a alma. E para chegar à cachoeira Maria Augusta, é preciso ingressar em uma fazenda, que cobra a entrada e visita por pessoa com descontos para crianças, idosos e pessoas com deficiência.

Consegui mergulhar a cabeça na gelada água e em um gesto meio místico, imaginar a alma lavada. Christian e Antônio chegaram bem mais pertinho da imensa queda de água que impõe respeito. Talvez seja esse o motivo em que muitos ficam na beira da praia fluvial, tomando sol e apreciando a natureza e o convívio familiar ou com amigos.

Chris, Antônio e eu, os corajosos...mas não muito!

Turismo intenso e tragédia no Lago de Furnas

Essa paisagem de rara beleza gerou ao longo dos últimos 15 anos uma enorme procura pelo turismo intenso, com obras no cânion como o mirante e uma estrutura para passeios em cadeiras tipo tirolesa. Infelizmente houve uma tragédia em 8 de janeiro de 2022 no local Escarpas do Lago, quando uma parte de um paredão de rochedo se desprendeu e atingiu quatro embarcações, matando 10 pessoas e ferindo outras 32.

Segundo informa o site da agência de notícias Agência Brasil, “estudos técnicos apontaram que a queda do bloco de rocha no lago de Furnas se deu como desdobramento de eventos naturais, sem influência da ação humana. Segundo as investigações, houve um processo geológico de remodelamento de relevo que é comum na região, o que torna possível que outras rupturas venham a ocorrer”.

Para aumentar a segurança nas atividades turísticas, a região foi reaberta gradativamente com regras rígidas para o acesso de turistas, com uso de capacetes e coletes salva-vidas próximo aos paredões dos cânions.

Vinicius, o motorista da lancha alugada para o passeio, foi o primeiro a chegar no local no dia da tragédia e, assim como outras lanchas, ajudou com o que era possível ser feito diante da tragédia.

Ao chegarmos perto do local – isolado por boias – a sensação é de respeito e de constatação da força da natureza. Fica uma reflexão: como conviver com as belezas naturais sem causar desequilíbrio?

Depois de um incrível pôr-do-sol em São João Batista do Gloria, como despedida de quatro dias incríveis, a volta para a imensa São Paulo é feita com gostinho de ‘quero mais’.

E na próxima semana, tem uma continuação, com a história dos tradicionais queijos da Canastra. Não perca!

Lena Miessva

Jornalista & Escritora & Blogger

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Olá, Sou Lena Miessva

Após percorrer várias estradas da vida no Brasil, Lena Miessva inicia um novo caminho em Portugal. Aprendizados nas relações humanas, na comunicação interpessoal e aprimoramento da escrita são seus focos principais nesses tempos de mudanças globais, locais e pessoais.

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