O queijo é apreciado em centenas de países e cada um tem seus preferidos. No Brasil, há mais de 100 tipos de queijos artesanais catalogados, com grande diversidade regional. Entre eles, está o famoso Queijo da Canastra.
O que há em comum na maioria dos produtores de queijos é a história de resiliência e determinação, característica de empresas familiares. No meu passeio em maio passado à Serra da Canastra, no Brasil (veja no blog), conheci Lais Vilela, da Queijaria Tradição, uma jovem dinâmica que é da quarta geração da aguerrida família Vilela. Vamos conhecer a sua história?
No Brasil, os principais tipos de queijos produzidos são: Minas Frescal (leve e fresco), Coalho (firme, ideal para grelhar), Requeijão (uma delícia para passar no pão!) e Canastra (queijo artesanal e curado).
Há dez microregiões em Minas Gerais que produzem o queijo Minas artesanal com indicação de procedência. O Queijo da Canastra é um queijo Minas artesanal produzido em uma dessas microrregiões – a da Serra da Canastra, Cada terroir (sim, é usado o mesmo termo que usa-se em vinhas) tem uma característica própria. Esse queijo tornou-se mundialmente conhecido e é produzido em Minas Gerais, a partir de leite bovino e de leite cru, sem pasteurização no processo de produção.
A agricultura sempre esteve permeou a família Vilela. Seus bisavô e avô eram envolvidos com genética de gado para produção de leite na fazenda Fumal, em São João Batista do Glória.
“A força da família”, segundo Lais, “sempre foi trabalhar com qualidade no setor de pecuária de leite com vacas de alta genética e produtividade. Éramos fornecedores de grandes laticínios”. Laís é da quarta geração da família dedicada à agricultura.
Entretanto, após a morte do avô, seu pai Ebenézer herdou a outra parte da fazenda com deslocamento da infraestrutura de retiro, de curral e de ordenha. Após isso, houve outro baque: o laticínio comprador não tinha mais interesse em recolher o leite devido à logística e à distância. Porém, desistir não é um verbo conjugado na família Vilela, como Lais conta:
– Essas mudanças causaram um desapontamento muito grande no meu pai como produtor. Nessa época, eu e meus irmãos estávamos estudando, fora de casa. Luciana, minha mãe, trabalhava com as minhas tias em uma pousada. Ao mudar para o gado de corte, minha mãe começou a produzir queijo fresco com o pouco de leite ainda gerado pelas poucas vacas. Ela estudou as técnicas em cursos e fazia cerca de cinco peças por dia e vendia na cidade, distante cerca de 20 quilômetros da fazenda. Todos os ganhos eram investidos tanto nos meus estudos quanto nos de meus dois irmãos.
No seu trabalho de conclusão de curso de Administração de Empresas (TCC), Lais fez um plano de negócios para a empresa familiar e depois ingressou nos negócios. Ela é responsável pela organização da fazenda, controle administrativo, vendas, marketing, e ajuda seus pais na produção junto com os meus pais também. Eles contam ainda com a irmã/filha Larissa, formada em nutrição, que dá o apoio técnico fundamental na queijaria, mesmo não trabalhando diretamente na empresa. E seu irmão mais novo, advogado que reside em Ribeirão Preto.
Então, construíram a queijaria conforme a legislação e iniciou-se a produção do Queijo da Canastra. Em 2008, ao perceber a oportunidade com a certificação do Queijo Minas Artesanal, a família ingressou na Associação dos Produtores do Queijo da Canastra (APROCAM). Lais ressalta o apoio que também receberam da EMATER, do SENAR, além das informações dos cursos frequentados no SEBRAE.
No ano passado, a Tradição Vilela ganhou a medalha de bronze, na Expoqueijo, concurso internacional realizado em Araxá e medalha de prata no concurso regional de Formiga. “Mas a maior premiação é a satisfação de quem vem até aqui, toma café com a gente e volta para comprar mais. Isso é o que nos move.”
Atenção ao leite da vaca!
Lais explica que imediatamente após a ordenha diária das vacas, com os seus bezerros nos pés, o leite ainda quente é retirado para a produção do queijo na temperatura natural. Então, adiciona-se o coalho (um coagulante) e o pingo, que é um fermento natural por ser o soro que ficou pingando do queijo feito no dia anterior e é responsável pelas características de textura, de sabor, o que torna cada queijaria única com seus processos e sabores. Depois do queijo feito, ele é maturado por 15 dias nas tábuas de madeira.
– Aqui na nossa propriedade, buscamos as maneiras mais tradicionais de produção do leite, que é a matéria-prima fundamental para o sabor do queijo. As nossas vacas são rústicas, de baixa lactação, com uma ordenha apenas por dia. Era assim que os nossos bisavós e o meu avô faziam.
A produção média do curral é de 8 litros de leite por vaca e para produzirem um queijo, são utilizados cerca de 12 litros de leite, com produção média de 10 queijos por dia.
É importante destacar que o Queijo Canastra é tombado pelo Patrimônio Histórico da Humanidade, pela Unesco e é patrimônio brasileiro há mais de 200 anos. E tem mais, em novembro de 2024, o município de São João Batista do Glória foi reconhecido pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) como integrante da região de Indicação Geográfica caracterizada pela produção do Queijo Canastra. A conquista foi resultado de um estudo de caracterização elaborado pela Emater-MG, Epamig, IMA, Associação dos Produtores de Queijo Canastra (Aprocan) e parceiros do Sistema de Agricultura mineiro.
Então, no Brasil, aproveite para conhecer as maravilhas de Minas Gerais e visitar a fazenda da Família Vilela e provar um delicioso queijo Canastra! Acesse o Instagram da Queijaria Tradição e planeje sua visita!
E na próxima semana, vamos conhecer um incrível museu português e sua diretora brasileira!





2 Comentários
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Good shout.
quando me perguntam do que sinto falta do Brasil, uma da poucas coisas que me vem à mente sempre é: queijo minas frescal. incrível como, num país que é também tão rico e diverso na produção de queijos, ainda ninguém conseguiu produzir um queijo tão simples e ao mesmo tempo delicado como o brasileiríssimo “minas frescal”. parabéns pela matéria e um “viva” à familia Vilela!
Casc]ao. É isso mesmo. Que falta que os queijos Minas fazemM!