A rede internacional que mudou a forma de viver no estrangeiro chega à maioridade. Conheça mais a organização, meu relacionamento com ela e seus embaixadores no Porto
Ninguém solta a mão de ninguém!
Para mim, essa frase do desenho Toy Story descreve o espírito de confraternização da InterNations, a maior comunidade global de expatriados, que celebra 18 anos de existência. Criada em 2007, a organização nasceu com a missão de tornar mais enriquecedora a vida de quem não está no seu país de origem. Afinal, vamos combinar, não é fácil mudar de país e em alguns casos até de continente. Por meio das iniciativas organizadas pelos embaixadores no mundo todo, os expatriados encontram apoio local e uma rica troca de experiências.
Ao chegar em Portugal em fevereiro de 2023, havia deixado amizades construídas em décadas e outras mais recentes, cultivadas a partir do ambiente de trabalho. Se a convivência familiar naquele momento trouxe alegria, encontros e risos, não poderia dizer o mesmo de meu lado social – sempre gostei de conhecer pessoas, fazer amizades e aprender com os outros. Então, um amigo comentou que havia uma rede internacional de apoio a expatriados. O primeiro pensamento foi: expatriada, eu? Mas estou em Portugal, falo o mesmo idioma, parte da história dos países é comum… como assim expatriada?
Pois é. Mas é a realidade. Então, fui ao primeiro encontro da InterNations, onde fui recebida de forma calorosa por Rui Pedro Silva e Natália Martinez, então os únicos embaixadores da organização dos encontros em bares e espaços interessantes do Porto. Em certo momento, fiquei um pouco sozinha e deslocada. Entretanto, logo o Rui convidou para sentar-me com as demais pessoas e participar do que chamamos no Brasil de ‘roda de conversa’.
Pouco tempo depois, fui a uma visita com o grupo ao Museu Soares dos Reis, onde conheci a Lavinia Trabattoni e o Stephen Turner – que hoje em dia são também embaixadores no Porto. Lavinia tornou-se também uma pessoa querida e o Stephen, desde que lancei meu blog em Portugal, é leitor assíduo dos posts (que têm tradução em sete idiomas).
Rui Pedro está no InterNations há 10 anos, e, segundo ele, foi das melhores decisões tomadas enquanto esteve expatriado em Marrocos e em Angola:
– Tornou a vida mais leve e trouxe-me amizades, com pessoas que, como eu, viviam longe do seu país natal. Isso fez toda a diferença e enriqueceu imenso o meu dia a dia. Depois do meu regresso ao Porto, continuei ligado ao InterNations e organizei vários encontros no centro da cidade, além de promover atividades como workshops de tango, padel e caminhadas. São momentos muito concorridos, cheios de boa energia, em que todos participam com entusiasmo. Para mim, estas atividades são uma forma bonita de descobrir melhor o lugar onde escolhemos viver e, ao mesmo tempo, desfrutar dos benefícios das atividades ao ar livre, bem como dar um pouco da minha experiencia pessoal na descoberta de novos trilhos e caminhos. É um convívio saudável que se cria entre pessoas de diferentes países e culturas.
Então, passei a integrar o animado grupo com estrangeiros – dos quais muitos brasileiros – e portugueses. Fiz novas amizades, cultivadas nos encontros e passeios. Lamentei não ir na primeira etapa do Caminho de Santiago – tão bem planejada pelo Rui – mas aguardo a segunda com ansiedade! Nesses dois anos e meio, foram vários passeios divertidos, caminhadas longas, risos com a minha falta de posicionamento geográfico (em alguns eu me perdi, em outros confundi o local da saída do passeio, mas sempre dei um jeito de acompanhar o ritmo e o grupo). Hoje tenho novos amigos que fazem sentir-me em casa.
Certo, o idioma da comunicação é o inglês, o que considero uma vantagem pois posso treinar a conversação desse idioma que tem me acompanhado profissionalmente. E quando estão os brasileiros e portugueses, damos um jeitinho de conversar entre nós – como fazem os alemães, ingleses, americanos…
Como tudo começou?
A InterNations foi fundada em Munique, na Alemanha, por três profissionais que conheceram de perto os desafios da vida de expatriado. Perceberam a falta de um espaço seguro e estruturado para partilha de experiências e integração em novas culturas. Então, criaram uma plataforma que hoje liga milhões de pessoas, unidas pelo desejo comum de construir uma vida no estrangeiro mais conectada e menos solitária.
Uma dessas pessoas é a colombiana Natália Martinez, que conheceu o movimento em 2013 quando morava em Hong Kong. Ali, um amigo francês sugeriu como uma forma de conhecer outros expatriados. Por meio dos eventos online, pode conhecer diferentes cidades pelo olhar dos moradores como Shanghai, Bangkok, Bogotá, Lima e Porto. Então, e quando chegou à cidade portuguesa, seu envolvimento foi maior:
– Quando vim morar no Porto, em 2017, me ofereci como embaixadora do grupo que não tinha mais que 10 pessoas. São oito anos que faço os eventos de coração. Gosto de conhecer pessoas de diferentes lugares, ter conversas interessantes e praticar o inglês. É lindo ver como a gente vai ampliando a comunidade e como surgem pequenos grupos que criam amizades por interesses em comum. Estou super grata porque hoje muitos são a minha família em Portugal.
Crescimento global e impacto local
Os chamados embaixadores e cônsules organizam as atividades sociais, culturais e de lazer. Os eventos online abordam temas para desenvolvimento profissional ou pessoal, apresentação de cidades por quem ali vive, troca de experiências entre escritores, conversação em vários idiomas. Há ainda alguns que a regra é manter a câmera aberta para o debate de temas específicos e partilhamento de opiniões.
A italiana Lavinia Trabattoni está em Portugal há nove anos e conheceu a organização por meio de amigos italianos expatriados em outros países. Inscreveu-se como membro Albatross e nos últimos dois anos é também embaixadora, como conta:
– Ao longo destes dois anos, tentei proporcionar experiências diferentes aos membros da comunidade, como por exemplo visitas a museus, aulas de yoga, sessões de stand-up comedy, degustações de vinho e de tapas vegetarianas. Uma vez por mês, eu e o Rui Pedro organizamos os eventos oficiais. Procuro sempre novos sítios para promover o networking entre membros. Agora, estou a introduzir novas actividades, como por exemplo, lançamento e apresentações de livros. Como embaixadora, meu papel é promover a cultura local e ser um ponto de referência pela comunidade, ajudando as pessoas estrangeiras a integrar-se num novo país.
O norte-americano Stephen Turner integrou a comunidade da InterNations depois de mudar para Portugal, como forma de conhecer pessoas e explorar a cidade. Hoje ele é também embaixador e forma a dupla com Natália para promover encontros mensais.
Dessa forma, no Porto há encontros em média a cada 15 dias e as pessoas inscrevem-se na plataforma. Há um valor para o ingresso e cada um que chega ganha uma etiqueta adesiva (a minha vive se perdendo!).
Stephen quem explica um pouco a experiência de expatriado e a relação com a organização:
– Conheci muitas pessoas simpáticas por meio da InterNations e algumas se tornaram bons amigos. Mudar para um país estrangeiro, especialmente quando não se conhece ninguém, traz sempre desafios — o processo do visto, lidar com a burocracia local ou com os serviços públicos e encontrar o que se precisa para a nova casa. Nos eventos, os recém-chegados podem encontrar pessoas que já passaram pelo mesmo processo e que podem auxiliar na solução dessas questões.
Desafios e aprendizagens
Ao longo da sua história, a InterNations enfrentou desafios importantes como manter a identidade global sem perder o toque local, garantir engajamento constante dos voluntários e membros, dinamizar sua plataforma e rede social, e equilibrar a experiência online com a importância dos eventos presenciais. É uma das poucas plataformas que alia escala global à proximidade comunitária.
Então, se estiver fora de sua cidade ou até mesmo em seu local de origem, fica a dica: consulte a plataforma e vá a um dos encontros. Acredite: será uma ótima oportunidade para enriquecer a sua vida e fazer novas amizades.




