Explorar as obras do arquiteto Álvaro Joaquim de Melo Siza Vieira — Álvaro Siza — tornou-se um dos meus passatempos preferidos em Portugal. Escrever sobre um mestre ainda vivo é sempre arriscado, mas afinal o que seria da vida sem riscos… e rabiscos?
Não tenho a pretensão de abarcar toda a vasta produção deste arquiteto premiado e reconhecido tanto em Portugal como no estrangeiro. Prefiro partilhar algumas descobertas pessoais e deixar sugestões para que possam explorar por conta própria os traços e talentos de Siza.
Um mestre entre nós
Nascido em 1933, em Matosinhos, cidade do distrito do Porto, Álvaro Siza foi o primeiro arquiteto português a receber o Prémio Pritzker, em 1992 — o mais prestigiado galardão internacional de arquitetura. Recebeu também o Leão de Ouro da Bienal de Veneza e muitas outras distinções.
Casou-se com Maria Antónia Marinho Leite (1940–1973), com quem teve dois filhos, dos quais um também é arquiteto: Álvaro Leite Siza Vieira.
Estudou na Escola Superior de Belas-Artes do Porto, onde viria também a lecionar. Inspirou-se em mestres como Frank Lloyd Wright, mas cedo criou a sua própria linguagem, cruzando referências modernistas internacionais com a tradição construtiva portuguesa.
Hoje, a sua obra está espalhada pelo mundo e influenciou várias gerações de arquitetos. Um exemplo além-fronteiras é o Museu Fundação Iberê Camargo em Porto Alegre, no Brasil. Em 2014, o MoMA de Nova Iorque comprou fotografias de Fernando Guerra, que acompanha a carreira do arquiteto, com 21 desenhos originais e uma maqueta do museu brasileiro que integram o acervo que o museu dedica ao arquitecto.
Entre os registos de sua obra, vale aceder ao site da RTP e ver os documentários tanto sobre sua obra quanto sobre a reconstrução do Chiado após o terrível incêndio de 1988. E ao pesquisar sobre o arquiteto, é interessante ver que seu site é de uma simplicidade espartana. Tem apenas o desenho abaixo e o endereço de seu escritório, no Porto.
Simples? Será? Pode parecer simples para quem nos Países Baixos, dirigiu, de 1985 a 1989, o Plano de Recuperação da Zona 5 de Schilderswijk. Simples mais ainda quando ele fala sobre ser arquiteto atualmente e do reconhecimento dos direitos autorais das obras. Vale ver no post do JN (Jornal de Notícias):
Na entrevista, “Álvaro Siza Vieira lamenta a falta de reconhecimento em Portugal e a ausência de convites para trabalhar mais no seu país. O arquiteto assume ainda que o “exercício da profissão é cada vez mais um pesadelo”.
A Ala Álvaro Siza em Serralves
Desde que cheguei a Portugal, acompanhei de perto os preparativos para a abertura da Ala Álvaro Siza, na Fundação de Serralves, no Porto. Quando finalmente abriu ao público, no final de 2023, foi emocionante percorrer o edifício ainda vazio, observar os espaços e sentir a arquitetura em estado puro.
Em março de 2024, a ala ganhou vida com duas exposições inaugurais:
- “Anagramas improváveis. Obras da Coleção de Serralves”
- “C.A.S.A. – Coleção Álvaro Siza. Arquivo”
Respira-se arquitetura em três pisos da Ala Álvaro Siza dedicados à arquitetura e à arte contemporânea. Dois deles recebem exposições; o terceiro guarda arquivos. A ala acrescentou 44% de área expositiva e 75% de reservas, consolidando Serralves como um espaço de referência mundial para conhecer o trabalho de Siza e para explorar a relação entre arquitetura, arte portuguesa e movimentos internacionais.
Fundação Gramaxo
Na cidade de Maia, está um sítio que vale visitar, espairecer e sentir a harmonia entre a arquitetura e a natureza. É a Fundação Gramaxo. Criada em 2013 em 2013 para promover as artes e a cultura e que ganhou nova sede em 2021, com projeto de Álvaro Siza. O museu ergue-se no coração de uma antiga quinta agrícola, em harmonia com a natureza e com elementos tradicionais da região, como um espigueiro raro naquela zona. Lá dentro, encontramos a coleção de Maria de Fátima Gramacho (em tempo, ambas grafias da Fundação Gramaxo estão corretas), exposições temporárias e um auditório.
A contemporaneidade do edifício contrasta com o ambiente rural e cria uma experiência única de diálogo entre passado e presente.
Siza pelo mundo
Segundo registos da Wikipédia, a obra de Siza inclui 278 projetos — de casas e escolas a igrejas, hotéis, mercados, centros culturais e até planos urbanísticos. Foi professor visitante em universidades de Harvard, a Politécnica de Lausana e a Universidade de Los Andes, em Bogotá.
Somam-se mais de 20 prémios e várias condecorações oficiais, incluindo a de Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública (2017). Recebeu também as chaves da cidade do Porto, em 2005, e é cidadão honorário de Matosinhos desde 2007. Entre 2014 e 2019, a sua obra esteve em exposição em cidades como Berlim, Oslo, Toronto e Granada.
Deixo aqui o link para a página na Wikipedia: Lista de Trabalhos de Álvaro Siza
Algumas obras imperdíveis em Portugal
Se quiser conhecer Siza de perto, aqui ficam algumas sugestões de visita:
- Casa de Chá da Boa Nova, em Leça da Palmeira.
- complexo das Piscinas de Marés,
- a igreja de Santa Maria, em Marco de Canaveses.
Um país que respira arquitetura
Passeando por Porto, Matosinhos ou Lisboa, é impossível não tropeçar em marcas da obra de Siza. A sua arquitetura não se impõe pela monumentalidade, mas pela forma como se entranha no quotidiano e no território.
É um privilégio viver num país que tem talentos como Álvaro Siza. Só falta que sejam mais lembrados e reconhecidos — cá dentro tanto quanto lá fora. E para terminar, deixo o link da excelente entrevista de Álvaro Siza ao Expresso, em 7 de fevereiro de 2017, em que fala da emoção da sua primeira obra – as quatro casas de Matosinhos.
Vale ver o documentário no Insta sobre as quatro casas!




