As estrelas da semana são um livro e milhares de árvores. Nos bastidores, estão pessoas empenhadas em preservar o ambiente através de uma gestão responsável.
O livro bilingue (português-inglês) ecossisTEMAS – Histórias de Impacto reúne doze casos de sucesso que mostra como Portugal recuperou áreas verdes e preservou espécies animais com uma gestão florestal responsável, alinhada com as diretrizes do FSC. Trata‑se de uma obra solidária: quando o adquiri, há alguns meses, contribui para a recuperação de áreas afetadas pelos incêndios de setembro de 2024.
O verão vermelho
Recordo aquele verão em que as notícias retratavam a força do vento nas áreas florestais e a devastação provocada. Observa‑se uma tendência recente para estações de fogo mais longas e intensas em Portugal, impulsionadas por ondas de calor, seca acumulada e eventos climáticos extremos associados às alterações climáticas. Os incêndios de 2024 concentraram‑se sobretudo nas regiões do Centro e do Norte, com frentes relevantes também em zonas do interior sul durante períodos de seca severa.
Não foram apenas as alterações climáticas ou fatores locais como o despovoamento rural e o abandono agrícola: houve queimadas agrícolas mal controladas, negligência com fogareiros e pontas de cigarro, e casos de fogo posto com intencionalidade, identificados em investigações. É importante lembrar isto, pois em menos de três meses teremos novo verão em Portugal e o risco de incêndios permanece elevado.
Nada mais coerente, portanto, do que aprender que existem outras vias de prevenção através de uma gestão florestal responsável.
O que é o FSC?
A primeira vez que ouvi estas três letras foi há algumas décadas, explicadas por Roberto Waack, no Grupo Orsa de Papel e Celulose, onde eu trabalhava como Gerente Sênior de Comunicação. Já o conhecia de uma empresa anterior em que trabalhamos juntos e foi uma agradável surpresa reencontrá‑lo, convivendo e aprendendo com ele tanto na sede do grupo em Barueri (São Paulo) como em Monte Dourado (Pará, Brasil), onde o Grupo Orsa assumiu o Projeto Jari com uma fábrica de celulose. Ali, Waack e a sua equipa conduziam operações de gestão sustentável por meio do manejo sustentável na floresta amazónica e colaboravam com a equipa de Comunicação nas atividades de relações comunitárias. Roberto Waack tinha uma forte ligação ao FSC, tendo presidido na altura a secção brasileira.
Mas vamos à explicação
O Forest Stewardship Council® (FSC®) é uma organização não lucrativa, de âmbito internacional, dedicada à promoção de uma gestão ambientalmente adequada, socialmente benéfica e economicamente viável das florestas em todo o mundo. O FSC é um sistema de certificação florestal que garante que os produtos florestais provêm de florestas geridas de forma responsável, respeitando direitos sociais, ecológicos e económicos e as necessidades da geração presente, sem comprometer as gerações futuras. Permite identificar fontes responsáveis de madeira, papel, cortiça e outros produtos de base florestal.
Em Portugal e no Brasil (assim como noutros países com presença do FSC), o selo tem grande peso para os produtos. Porém, a certificação FSC não é apenas um rótulo numa embalagem: quando uma organização escolhe implementá‑la, integra uma rede de confiança que protege as florestas, a flora e a fauna que nelas habitam e as pessoas que delas dependem.
Segundo o site do FSC, 79% dos consumidores que reconhecem o selo confiam numa marca que o utiliza. Em 50 países inquiridos, 52% dos entrevistados reconheceram o selo quando solicitados.
As histórias e os seus bastidores
O livro narra trajetórias de agricultores e comunidades ao longo de décadas e como a gestão responsável traz ganhos económicos e ajuda a conservar florestas no continente e a preservar espécies nas ilhas. Escolhi duas para partilhar.
O fogo que tudo leva, mas que também controla
“Tudo começou no século XVIII. A família Amaral Neto escolheu Casais das Balsas, Valeira e Pai Poldro para viver. (…) Sobreiro, pinheiro bravo e pecuária foram as escolhas desde o início do século XX até aos anos 1960”, segundo o livro. O arroz e os pessegueiros surgiram depois, em paralelo com barragens e mecanização. Em 1984, após a reforma agrária e a rutura da barragem do Pai Poldro, os antigos proprietários regressaram e introduziram mudanças, como as primeiras arborizações com eucaliptos, a produção ovina e o retorno dos sobreiros e pinheiros bravos. O fogo de 2003 devastou grande parte da propriedade, mas não afastou a família da sua tarefa. Em 2009 obtiveram certificação FSC para 766 hectares, dos quais 81 estão classificados para conservação.”
Priolo: salvo pela conservação e pela certificação
Na zona oriental da ilha de São Miguel, nos Açores, a certificação FSC contribuiu para salvar o pássaro priolo. A redução e degradação das áreas de floresta laurissilva, devido a espécies exóticas invasoras, diminuiu drasticamente a disponibilidade alimentar deste pequeno pássaro. Já não havia botões florais nem frutos que constituíam a sua alimentação na área montanhosa conhecida como “Terras do Priolo”. Para o salvar, foi criado o projecto LIFE Priolo, coordenado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), com financiamento da Comissão Europeia e cofinanciamento do Governo dos Açores.
Nos primeiros cinco anos recuperaram‑se 205 hectares. Em 2013, a recuperação de uma área de 24 hectares, com uma diferença de altitude de cerca de 600 metros, permitiu repor alimento para a ave. Outras ações foram igualmente implementadas. Com boas práticas florestais e gestão adequada, a sobrevivência da espécie ficou garantida.
Após 20 anos, os resultados falam por si: 350 hectares de laurissilva e 99 hectares de turfeiras recuperados, 21 empregos criados, 85% do orçamento investido em empresas locais, ações de educação ambiental envolvendo mais de 10 mil pessoas da comunidade local e sensibilização de 30 mil alunos. “Priolo é agora uma marca da região. O priolo agradece.”
Todas as histórias demonstram que, com resiliência, determinação e gestão correta, os resultados surgem e perduram. Joana Faria, Secretária Executiva para Gestão Financeira e de Projetos, Mercado e Parcerias do FSC Portugal, destaca:
- “Mais do que um conjunto de histórias, este livro representa um gesto coletivo de reparação e esperança, onde cada página lida contribui para reflorestar o país e valorizar o papel das comunidades que vivem, trabalham e protegem o território.”
Pedro Serafim, Presidente do FSC Portugal, refere:
- “Este livro é um testemunho vivo de que a certificação FSC vai muito além de um selo ou de uma norma técnica — é uma ferramenta de transformação real e positiva nas florestas e nas comunidades que as gerem. ecossisTEMAS – Histórias de Impacto mostra‑nos, com emoção e verdade, o impacto humano da boa gestão florestal e reforça a importância de continuarmos juntos, sociedade civil e setor florestal, a cuidar daquilo que é de todos: os nossos ecossistemas.”
Joana Faria explica que a campanha, que decorreu entre 23 de novembro de 2024 e 23 de novembro de 2025, superou as expetativas: foram angariados 13.653,38 euros para aplicação na recuperação de áreas florestais degradadas e devastadas pelos incêndios de setembro de 2024.
O sucesso da iniciativa motivou a continuação da angariação de fundos, com o lançamento da nova Campanha “Projetos de Impacto”, alargando o foco para apoiar projetos de organizações certificadas com impacto na gestão florestal, serviços de ecossistemas ou produtos florestais não lenhosos.
Se desejar, conheça mais sobre o trabalho do FSC Portugal. E, se puder, divulgue as ações e campanhas. Cuidar do ambiente é tarefa de todos, para deixarmos um mundo preservado às gerações futuras.
Créditos do livro:
Edição – AGRF – Associação para uma Gestão Florestal Responsável – FSC Portugal
Coordenação – Joana Faria
Texto – Mariana Serra
Fotografia – 360 Perspectivas – Alexandre da Silva
Design e Paginação – ERPA, Porto
Tradução – Gill Pavey
Revisão – Ines Costa Luz, João Castro Miguel, Moguel Soares e Pedro Serafim
Impressão – Onda Grafe – Soluções Gráficas



