Porto e Isfahan: pontes invisíveis pela arte

Como a cultura e o legado artístico unem Porto e Isfahan: a história de Sara Maher e sua família de arquitetos reconhecidos e as iniciativas que podem aproximar Portugal da cultura persa

Sara Maher e alguns itens oferecidos em exposição persa no Porto

Em um dos encontros promovidos pela organização InterNations, conheci algumas mulheres iranianas que chamaram minha atenção. Talvez fosse um certo olhar misterioso e ao mesmo tempo uma expressão alegre em estar em terras portuguesas, construindo novas etapas de suas vidas. Aqui abro espaço para quem tem a arte pulsando em sua família há gerações.

Nesses tempos insanos em que as guerras invadem berços da civilização, é mais que oportuno conhecer Sara Maher, que deseja aproximar a cultura de seu país Irão (grafia adotada em Portugal), aos portugueses, especialmente do Porto, onde reside com seu marido Shahram Rabbani.

Sara contou sua história em um café em Vila Nova de Gaia, onde moro. Chegou com Shahram, e parecia um pouco tensa. Pediu desculpas pois estava sem contato com sua mãe – afinal, há mais de um mês que o país está sem internet e a comunicação por telefone é crítica e difícil.

Então, vamos à história da família Maheronnaghsh?

O apelido de Sara (sobrenome no Brasil), carrega uma história de arquitetura e arte — originalmente Maheronnaghsh , significa “alguém que é profissional na arte”, um legado que começou por seu avô arquiteto e que trabalhou no município de Isfahan, na restauração de vários monumentos históricos, como a icónica Praça Naqsh-e Jahan (que abre esse post), e na preservação de séculos de arte e história. Esse legado chegou até sua geração com arte e graça.

Palacio Chehel Sotoun

Seu avô Gholamali Maheronnaghsh foi um dos arquitetos de destaque de Isfahan e pertencia à uma linhagem profundamente enraizada na arte e na arquitetura tradicional iraniana ao longo de várias gerações. O seu bisavô, o mestre Asadollah Memar — foi o arquiteto do mihrab da Mesquita Seyyed, uma das mais renomadas mesquitas de Isfahan e do Irão —, bem como os seus tios – arquitetos respeitados nesta área. Mihrab é um elemento arquitetónico fundamental nas mesquitas, consistindo num nicho ou cavidade em forma de abside, localizado no centro da parede da qibla, cuja função principal é indicar a direção de Meca. Os muçulmanos oram cinco vezes ao dia em direção a esta cidade sagrada, e o mihrab ajuda a orientar os fiéis e é colocado simetricamente na parede da sala de oração que está orientada para Meca.

Gholamali Maheronnaghsh destacou-se particularmente pelo seu trabalho na restauração e preservação de monumentos históricos, incluindo o complexo da Praça Naqsh-e Jahan (que abre esse post) e marcos como o Palácio Chehel Sotoun.

Seu avô, próximo de um dos monumentos reabilitados

Outra figura destacada desta família é Mahmoud Maheronnaghsh, reconhecido como o “pai da azulejaria iraniana”.

No conjunto, este legado reflete uma família na qual a arte e a arquitetura estiveram profundamente enraizadas e foram continuamente transmitidas de geração em geração.

Já em Portugal, Sara simplificou-o para “Maher”, procurando torná-lo mais próximo e familiar no contexto europeu. Mas a essência manteve-se tendo a arte como fio condutor.

Mesquita Seyyed
Mesquita Seyyed

Sara nasceu em Isfahan, a cidade mais importante do Irão após a sua capital, Teerão — um sítio (lugar em português de Portugal) histórico, marcado por monumentos, azulejos e um rio que atravessa a paisagem. Talvez por isso, quando chegou ao Porto, em fim de 2016, há nove anos, sentiu-se acolhida. Mas o acolhimento não foi por acaso. Afinal, Porto e Isfahan tornaram-se cidades gémeas (twin cities) em 2019. A conexão, segundo Sara, está nos detalhes – na luz, na arquitetura, na presença da água, nas pessoas, como enfatiza: “Aqui, sinto-me em casa.”

Encanta-se particularmente com os idosos — com a forma como se apresentam, com o cuidado, com a elegância simples, como os casais que andam de mãos dadas. Pequenos gestos que foram apagados nas últimas décadas pois nasceu logo após a Revolução Islâmica, ocorrida em 1979, e que transformou o país com mudanças culturais, sociais e políticas.

Quem nunca apertou uma tecla errada no notebook?

Entretanto, a vinda para Portugal não fazia parte do plano. Criada numa família que valorizava profundamente a cultura e o compromisso com o país, Sara sempre acreditou que o seu caminho seria permanecer ali, como seu pai dizia – “crescer e fazer o Irão forte”.  

Sara e seu marido Shahram

Mas a vida, às vezes, escreve noutra língua. Depois do casamento, acompanhou Shahram em uma temporada na Suécia, onde ele fazia parte de seu doutoramento. Ao ter o primeiro contacto com o ambiente académico europeu, percebeu que havia muito a descobrir no mundo ocidental. Então, ao decidir fazer seu doutorado no estrangeiro, candidatou-se a programas na Áustria e em Portugal. Optou pela Áustria, estudou alemão para a rotina diária em Viena e providenciou moradia. Tudo já organizado, certo? Só que o imponderável aconteceu…

Uma semana antes da entrevista no consulado austríaco, ao preparar a documentação, respondeu a várias questões no sistema em seu notebook por meio de cliques com ‘yes’. E, em um segundo, acidentalmente, clicou ‘yes’ em cancelar marcação. Infelizmente, pelas regras do sistema online, o erro era impossível de ser corrigido pela organização, pois havia uma fila online de espera. Em segundos, tudo ruiu. Ou quase tudo…

Quando o plano muda — e faz sentido

Foi seu marido que, de forma otimista, lembrou que a opção para Portugal ainda era válida. Chegou com a ideia de seguir depois para Viena, mas em poucos dias, mudou sua decisão. Na nossa conversa, Sharam ressalta que esse desvio de rota foi como um milagre. A cidade, o ritmo, a forma de estar das pessoas, tudo era familiar.

Às vezes, não é preciso procurar muito para sentir-se em casa. Basta reconhecer o ambiente.

Sara concluiu o doutoramento na área de Saúde e Segurança e trabalhou em uma empresa americana. Mas havia sempre uma outra dimensão a pulsar em paralelo: a arte. Ela explica que ela e o marido montaram em Tehran um café-galeria chamado “Café Dialogue”, com teatro no piso superior. Lá, organizavam eventos como exposições, apresentações artísticas e encontros culturais.

Segundo Sara, muitos artistas, intelectuais e apreciadores de arte reuniam-se ali regularmente. Gostavam tanto do ambiente que o realizador (no Brasil, diretor de cinema)  Tahmineh Milani teve a gentileza de oferecer-lhes uma das suas obras para expor no café. Organizaram ainda exposições de arte como escultura em madeira, pintura e fotografia.

Sara na graduação de seu doutorado

Em Portugal, essa vontade encontrou uma nova forma de expressão, inicialmente ao trazerem peças de artesãos iranianos, enquanto seguem com a busca de um espaço semelhante no Porto para o que acreditam ser um propósito: tornar a arte e a história persas mais conhecidas.

PortaPersa: mais do que uma marca

Foi assim que nasceu a marca PortaPersa – para abrir espaços e criar pontes. Uma forma de mostrar o Irão para além das manchetes e dos estereótipos, ao revelar a riqueza cultural, a delicadeza do trabalho artesanal e, de forma indireta, as histórias humanas por trás de cada peça. Afinal, cada objeto carrega mais que um belo material. Carrega tempo, contexto, resistência.

Muitos dos produtos vêm de artesãos que enfrentam dificuldades económicas, especialmente de mulheres que sustentam as suas famílias. Pessoas que continuam a criar, não apenas por necessidade, mas por paixão, como explica Sara:  

— Há quem pudesse ganhar mais noutras áreas, como motorista de carros por aplicativos, mas escolhem continuar a criar peças diferenciadas e conectadas com a história. Porque fazem isto com o coração.

Sara e os realizadores Asghar Farhadi e Tahmineh Milani em seu café, em Tehran
Algumas peças do artesanato persa

Desconstruir ideias, contar histórias

Uma das motivações mais fortes de Sara é mudar perceções. Quando chegou a Portugal, deparou-se com perguntas que revelavam o desconhecimento profundo sobre o Irão: se as mulheres podiam conduzir viaturas (carros, no Brasil), se eram obrigadas a usar determinados tipos de vestuário como burqa (uma cobertura integral do corpo, com o rosto oculto, muitas vezes com apenas uma rede para os olhos). Ela explica que de forma geral, a burqa não é considerada parte do vestuário tradicional ou comum das mulheres no Irão. Já quando se fala em hijab, normalmente refere-se à cobertura do cabelo e do pescoço, e não do rosto. Após a Revolução de 1979, o uso do hijab tornou-se legalmente obrigatório. Embora, na sequência de movimentos civis recentes, algumas mulheres em certas regiões do Irão possam optar por não o usar, a lei do hijab obrigatório continua em vigor, pelo menos neste momento, e o seu incumprimento pode acarretar consequências legais.

A realidade, segundo ela, é muito mais complexa e rica. As mulheres representam uma grande parte da população universitária – cerca de 70% – têm presença ativa na sociedade, nas artes, na ciência. Duas mulheres iranianas já receberam o Prémio Nobel da Paz: Shirin Ebadi (2003), advogada pioneira pelos direitos humanos, e Narges Mohammadi (2023), ativista presa por lutar contra a opressão feminina e a pena de morte no Irão. Ambas se destacam pela corajosa defesa dos direitos humanos num contexto de repressão teocrática.

E é essa realidade que Sara procura mostrar, por meio da arte, da cultura e das histórias.

Para além da procura pelo espaço, Sara e o marido têm atuado no planeajemnto e organização de eventos culturais como noites persas com música, poesia e dança, encontros que aproximam comunidades e promovem conexões. Participaram também em iniciativas como a Vogue Fashion Night Out, onde estabeleceram contactos com artistas e criativos de diferentes áreas.

Momentos em noites de cultura persa

Um legado que continua

Sara quer honrar o legado iniciado por seu avô, como diz:

— Cada vez que olho a sua foto na restauração do monumento, sinto que tenho de continuar.

Assim, ela esforça-se por construir uma ponte invisível entre o Porto e Isfahan — uma ponte sustentada pela arte, para além de quaisquer fronteiras. Ao mesmo tempo, tendo aprendido tanto com a cultura, a arte e as tradições europeias — especialmente com os portugueses e outras comunidades migrantes em Portugal — acredita que cada território carrega a sua própria história única para ser contada.

Na sua perspetiva, o Irão é rico em histórias menos conhecidas sobre a sua cultura, arte, gastronomia, vestuário e modo de vida — histórias que podem ser inspiradoras e cativantes para pessoas de outras nacionalidades. Por isso, numa altura em que viajar para o Irão não é facilmente acessível para muitos, procura criar “um canto do Irão” em Portugal — um espaço onde as pessoas possam experimentar uma perceção real e tangível desta terra menos conhecida: através da degustação da sua gastronomia, da observação das suas danças, do contacto com as suas artes e da descoberta da sua literatura e das suas narrativas culturais.

As peças importadas são expostas em eventos e podem ainda ser encontradas no insta de Sara. Ali, há ainda pequenos vídeos que mostram a arte em tapeçaria, feita em sua maioria, por homens, enquanto as mulheres são mais presentes nos trabalhos de joalheria.   

Cidade milenar de Isfahan

Se quiser conhecer sobre o Irão… aqui tem está um pouco de sua história

Irã ou Irão (no Brasil ou em Portugal), era conhecido como Pérsia, o berço de uma das civilizações mais antigas do mundo, iniciada por volta de 2.800 AC. Após invadirem o país, árabes muçulmanos conquistaram-no por volta de 651. Depois, o país desempenhou um papel vital durante a Idade de Ouro Islâmica, produzindo diversos cientistas, acadêmicos, artistas e pensadores influentes. A Revolução Constitucional Persa de 1906 estabeleceu o primeiro parlamento da nação, que operava dentro do sistema político de monarquia constitucional. Após um golpe de Estado apoiado por Reino Unido e Estados Unidos em 1953, o Irão tornou-se gradualmente autocrático. A crescente oposição contra a influência estrangeira e a repressão política culminou com a Revolução Iraniana, que acabou por criar uma república islâmica em 1.º de abril de 1979.

Um país geograficamente diverso, mas principalmente montanhoso, tem fronteiras a norte com a Armenia, AzerbaijãoTurquemenistão e Mar Cáspio; a leste com Afeganistão e Paquistão; ao sul com o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã; a oeste com o Iraque; e a noroeste com a Turquia. É a segunda maior nação do Oriente Médio e a 18.ª maior do mundo, com mais de 92 milhões de habitantes. Teerão é a sua capital e a maior cidade, servindo como o centro cultural, financeiro e industrial da nação. O Estreito de Ormuz se situa entre o Irão (a norte) e o Omã (através do seu exclave de Musandam) e os Emirados Árabes Unidos (a sul).

O Irão sempre teve uma importância geopolítica significativa devido à sua localização, no cruzamento entre o Sul, o Centro e o Ocidente da Ásia.  Ele exerce uma grande influência na segurança energética internacional e na economia mundial através das suas grandes reservas de combustíveis fósseis, que incluem a maior oferta de gás natural no mundo e a quarta maior reserva comprovada de petróleo. É um dos membros fundadores  da ONU, da Organização da Conferência Islâmica (OCI) e da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

Seu sistema político é baseado na constituição de 1979 e combina elementos de uma democracia parlamentar com os de uma teocracia religiosa dirigida por clérigos nacionais, na qual a mais alta autoridade governamental é o Líder Supremo. Apesar de ser uma nação multicultural que inclui vários grupos étnicos e linguísticos, o islamismo xiita e o persa são os únicos classificados como a religião e o idioma oficiais do país, respectivamente.

Lena Miessva

Jornalista & Escritora & Blogger

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Olá, Sou Lena Miessva

Após percorrer várias estradas da vida no Brasil, Lena Miessva inicia um novo caminho em Portugal. Aprendizados nas relações humanas, na comunicação interpessoal e aprimoramento da escrita são seus focos principais nesses tempos de mudanças globais, locais e pessoais.

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