Descubra a história milenar do Castelo dos Mouros, em Sintra, e viaje pelas heranças islâmicas, cristãs e reais de Portugal.
Há algumas décadas, quando estive na Alemanha pela primeira vez em visita a Dieter e Ursula Sparrer, um casal muito amigo, quando visitávamos o centro histórico de Colónia, Dieter apontou uma torre e disse:
– Olha, Lena, essa torre tem 600 anos – mais que o Brasil, um país ainda muito jovem.
Só morando no velho continente é que entendemos o que significa conviver com a memória de séculos de invasões, reconquistas, estratégias militares, intercâmbio de culturas tão díspares como a muçulmana e a cristã, povos tão diferentes como visigodos, suevos (os atuais suecos) e os romanos.
Quando a História ganha vida
Na minha recente visita a Lisboa e aos meus sobrinhos Octavio, Alessandra e a filha Duda, passeamos por sítios que têm marcas seculares. Depois dos passeios, procuro aprofundar meus conhecimentos para entender melhor a nação portuguesa nos livros de história da biblioteca pública que frequento em Vila Nova de Gaia. E a partir das minhas dúvidas antes de percorrer as estantes, o sempre prestativo bibliotecário indica de forma rápida onde pesquisar (ainda abordarei num futuro post o cuidado com as bibliotecas municipais por Portugal que é impressionante). Foi assim que li sobre o período muçulmano em terras lusas e conheci mais sobre o Castelo dos Mouros.
O Castelo dos Mouros e a herança islâmica em Portugal
O Castelo dos Mouros, localizado na Serra de Sintra, tem uma história com mais de mil anos e reflete as sucessivas ocupações da Península Ibérica até à consolidação do Reino de Portugal, integra o patrimônio da UNESCO por meio da paisagem cultural de Sintra e é patrimônio nacional desde 1910, no reinado de D. Manuel II.
Aliás, o conjunto de Sintra foi classificado pela UNESCO como Património Mundial em 1995, com o nome “Paisagem cultural de Sintra” e foi a primeira paisagem cultural a ser classificada por aquele organismo na Europa.
A fortificação foi erguida durante a ocupação muçulmana na Península Ibérica – provavelmente entre os séculos VIII e IX, ou, segundo alguns pesquisadores, até antes – afinal, por essas terras andaram vários povos além dos já conhecidos romanos. Foi erguido sobre um maciço rochoso isolado em um dos cumes da Serra de Sintra, e de suas muralhas, podemos avistar toda a região até o oceano Atlântico.
A subida até às muralhas: vale o esforço?
Fica um conselho de quem por lá passou. O passeio vale a pena mas para chegar lá, tem que ter determinação em subir a Rampa da Pena, um caminho sinuoso que corre pelo interior da Serra de Sintra. Ao longo dos séculos, o espaço foi ocupado por obras de valor artístico e histórico e variados espécimes botânicos, muitos deles de carácter raro e exótico.
Arquitetura, torres e vistas sobre o Atlântico
O castelo tem cerca de 450 metros de perímetro e 12 000 m² de área. As suas muralhas são constituídas por uma cintura dupla, exterior e interior. Na parte leste é possível ver troços (trechos, em português do BR) da muralha exterior, onde se localiza a porta em rodízio de acesso ao recinto. O topo da muralha interna, com ameas (espaço vazio ou recortado que permitia aos defensores observar, atirar flechas ou disparar sobre o inimigo) é percorrido por adarve (caminho ou passeio estreito situado no topo das muralhas normalmente localizado logo atrás das ameias). Tudo reforçado por diversas torres.
Além das muralhas ameadas, torres e adarves, o conjunto é completado por diversas rampas e escadarias de acesso. E vale observar a “porta árabe” em arco em ferradura (segundo pesquisas, essa estrutura pode ter sido criada por antigos habitantes da Península Ibérica, que por ali passaram antes dos Romanos, à arte visigoda (século VII), que lhe deram o primeiro impulso importante para uso na arquitetura. Dos visigodos passou à arte hispano-muçulmana e, dali, passou à arte moçárabe e à mudéjar.
Uma pausa para explicação: As artes moçárabe e mudéjar são estilos resultantes da convivência entre as culturas cristã e islâmica na Península Ibérica. A principal diferença reside na direção dessa mistura: a arte moçárabe foi criada por cristãos sob domínio muçulmano, enquanto a arte mudéjar foi feita por artesãos muçulmanos em territórios reconquistados pelos cristãos. Impressionante como é possível integrar diferentes culturas!
Haja fôlego e pernas para subir e descer! Mas vale a pena!
Graças à sua posição, os mouros conseguiam controlar os acessos a Lisboa, Cascais e Mafra, além de proteger os férteis campos agrícolas da região. Hoje, os turistas – eu incluída evidentemente – ficam sem fôlego ao chegar em suas muralhas e percorrer as exíguas passagens.
Já aprendi a ser turista sem culpa – carrego meu bastão de alumínio e faço pausas de descanso. Em uma delas, apoiada nas gigantescas pedras, fiquei a imaginar a vida naquele tempo.
Será que é tão diferente de hoje a par de toda a tecnologia que temos? As pessoas querem sempre o básico – casa, comida, trabalho e uma terra para plantar…
E vamos andando…
A muralha apresenta cinco torres (percorremos todas!) – quatro de planta retangular e uma de planta circular encimadas por merlões piramidais (é a parte saliente do parapeito de uma fortificação, entre duas ameias. Após 500 degraus de tamanho irregular, chega-se à Torre Real na parte mais elevada do terreno. Ali, no período islâmico constituíu-se a alcáçova (a cidadela fortificada de origem árabe ou moura, que servia como residência para governantes e como último ponto de defesa militar).
Sintra vira a queridinha da realeza
Sintra viria a ser reconquistada pelas forças de Afonso VI de Leão e Castela, mas por pouco tempo… Logo voltou ao domínio muçulmano em 1095, até ser entregue ao primeiro Rei de Portugal, D. Afonso Henriques em 1147.
Da reconquista cristã ao abandono
Durante as gerações seguintes, a realeza elegeu Sintra para sua estadia de verão, dedicando-se a construir palácios, como o Palácio Nacional de Sintra – para fugir do calor escaldante de Lisboa. Essa decisão fez com que o castelo mouro ficasse em segundo plano, entrando em decadência, principalmente após o século XV, face à expulsão dos judeus do país, que eram seus habitantes.
Em 1939, com o Estado Novo, foram feitas intervenções como a reconstrução de troços (trechos em português do Brasil) das muralhas. Nos anos de 1986 e 1992 foram realizados trabalhos de limpeza e reconstrução de alvenarias, degraus e a estrutura de defesa em várias zonas do castelo. Atualmente, há uma área de apoio para turistas, com sanitários e cafetaria em ótimas condições.
E vejam como são as coincidências. Estive nesse serra de Sintra em 1998 em um rally de jeep, uma atividade para integrar a equipe mundial dos executivos de Comunicação da Boehringer Ingelheim. Tinhamos reuniões semestrais sempre com a presença do presidente e nesse dia, ele estava participando na minha equipa no meu jeep! Bons tempos que viajavamos para reuniões porque não tinha ainda videoconferência via web…
Porque continua o Castelo dos Mouros a fascinar visitantes?
Então, depois de horas caminhando com o intenso sol no castelo (sem chapéu no verão nem pensar!), fomos ainda conhecer o Palácio da Pena que fica em frente e depois voltamos de TVDE/Uber para a estação de comboio (trem, em português do Brasil), pois as energias físicas ficaram lá em cima! Mas a sensação de ter viajado no tempo… essa carregarei comigo!
Então, se vier para Portugal e à Lisboa, invista seu tempo em conhecer a Serra de Sintra e seus encantos.
Linha do tempo de Sintra
- Séculos X a VIII A.C. – primitiva ocupação humana da região de Sintra
- Século VIII – conquista islâmica
- Séculos IX e X – primitivo encastelamento islâmico
- 1093 – Afonso VI de Leão e Castela conquista Sintra e seu castelo
- 1147 – O castelo é entregue voluntária e definitivamente a D. Afonso Henriques
- Século XV – O sítio do castelo é habitado por judeus, segregados da comunidade por ordens da Coroa
- 1375 – D. Fernando I arrenda o castelo e empreende a sua restauração
- 1995 – O sítio “Paisagem cultural de Sintra” é inscrito na lista do Património Mundial da UNESCO.



