Descubra como Francisco d'Oliveira Ferreira ajudou a moldar a arquitetura de Vila Nova de Gaia no início do século XX
Moro numa cidade cuja história remonta ao período Paleolítico e que foi fundada como vila por D. Afonso III, no século XIII. A Vila Nova de Gaia que hoje conhecemos, porém, ganhou a sua identidade urbana entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, quando a industrialização, as novas infraestruturas e uma arquitetura inovadora transformaram profundamente a paisagem da cidade.
Nestes três anos e meio em que vivo aqui, descobri que Gaia é muito mais do que as famosas caves do vinho do Porto. Gosto de caminhar pelo passadiço junto ao mar, mas também de percorrer as ruas do centro histórico, da zona ribeirinha e da freguesia de Devesas, cuja importância foi decisiva para o desenvolvimento urbano do concelho.
Talvez por sempre ter tido fascínio pela cultura celta, considero uma feliz coincidência viver numa região cuja origem está ligada a um antigo castro — povoado fortificado típico da Idade do Ferro — e ao nome romano Cale, na margem sul do rio Douro, que acabaria por dar origem ao próprio nome de Portugal.
A cidade que se reinventou
Embora as suas raízes sejam muito antigas, Vila Nova de Gaia começou a assumir a configuração de uma cidade moderna após recuperar a autonomia administrativa, em 1834, no final da Guerra Civil Portuguesa – a que teve D. Pedro IV (no Brasil, D. Pedro I), a lutar ao lado dos liberais contra seu irmão Miguel.
A inauguração da Ponte Dom Luís I, em 1886, foi um marco decisivo. A ligação direta ao Porto impulsionou o crescimento econômico, facilitou o transporte de pessoas e mercadorias e abriu caminho para a expansão urbana. Poucos anos depois, a ferrovia consolidou esse desenvolvimento.
Hoje é curioso observar, sobretudo durante o verão, visitantes admirando diariamente a ponte e o movimento intenso sobre o Douro. Confesso que isso também desperta em mim um certo orgulho. Afinal, embora brasileira de nascimento, foi em Gaia que escolhi construir uma nova etapa da minha vida.
As três primeiras décadas do século XX transformaram profundamente o concelho que pertence ao distrito do Porto. Foram abertas novas avenidas, instalaram-se redes de abastecimento de água, saneamento e eletricidade, surgiram edifícios públicos e a Avenida da República consolidou-se como o novo centro cívico da cidade.
Um arquiteto com alma de artista
Grande parte dessa transformação tem a assinatura de Francisco d’Oliveira Ferreira.
Nascido no Porto, em 25 de setembro de 1884, formou-se em Arquitetura Civil na Academia Portuense de Belas Artes e aperfeiçoou os seus estudos na prestigiada École des Beaux-Arts, em Paris. Viria a falecer em Vila Nova de Gaia, em 30 de dezembro de 1957.
O seu talento revelou-se muito cedo. Com apenas 25 anos e ainda estudante em Paris, apresentou, juntamente com o irmão José Ferreira, escultor, um projeto para o concurso do Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular, em Lisboa, criado para assinalar o centenário da vitória sobre as tropas napoleónicas. Entre quinze propostas apresentadas, a dos dois irmãos foi a vencedora — um feito notável para dois jovens artistas.
O episódio é relatado pelo jornal Público, numa reportagem publicada em junho de 2021 por ocasião do lançamento do livro Das Praias de Gaia ao Centro do Porto, de Domingos Tavares, dedicado à vida e à obra do arquiteto.
Mas Oliveira Ferreira não se limitou à arquitetura. Participou ativamente da vida cívica e cultural, integrou a comissão organizadora das comemorações do centenário do Município de Gaia e foi sócio fundador da Sociedade da Praia de Vila do Conde.
Entre 1935 e 1939 percorreu Portugal desenhando cerca de 60 monumentos arquitetônicos, reunidos na coleção Preciosidades Nacionais, um importante registo gráfico do património português.
Um arquiteto entre a tradição e a modernidade
Embora tivesse formação clássica, Oliveira Ferreira acompanhou atentamente as novas correntes arquitetônicas que surgiam na Europa, sobretudo a Arte Nova, conhecida durante as suas viagens ao estrangeiro.
Interessou-se pelos novos materiais que revolucionavam a construção — como o ferro, o vidro e o betão — e pertenceu à geração de arquitetos que conciliou o rigor acadêmico da escola francesa com as necessidades de uma sociedade cada vez mais industrializada.
O resultado foi uma arquitetura eclética, elegante e inovadora, capaz de dialogar com a tradição sem deixar de abraçar o progresso.
Entre as suas obras mais emblemáticas destacam-se o Edifício da Câmara Municipal de Gaia, concebido em 1916 (no Brasil, seria a prefeitura da cidade); a antiga Fábrica de Cerâmica e Fundição de Devesas; o Sanatório Marítimo do Norte, em Valadares — edifício que admiro sempre que regresso das minhas aulas de hidroginástica na Piscina Municipal da Granja —, além de diversos edifícios residenciais e comerciais no Porto.
Paços do Concelho e o novo rosto de Gaia
O edifício dos Paços do Concelho tornou-se o símbolo da nova Vila Nova de Gaia. A primeira pedra foi lançada em 25 de julho de 1915 e, mais de um século depois, o edifício foi alvo de uma profunda intervenção de reabilitação, concluída e inaugurada em março de 2025, preservando o seu valor histórico e arquitetônico. Atualmente, há uma singela exposição sobre o arquiteto, sua vida e a inauguração do edifício.
Quem visita o Porto também pode apreciar outras obras do arquiteto, como o histórico Café A Brasileira e o elegante edifício do Clube dos Fenianos Portuenses, ambos exemplos da qualidade e da versatilidade do seu trabalho.
Um convite para atravessar o Douro
Muitos turistas chegam ao Porto sem imaginar que, do outro lado da Ponte Dom Luís I, existe uma cidade com um patrimônio arquitetônico riquíssimo e uma história que vai muito além das caves de vinho.
Se estiver de visita ao Porto, reserve algumas horas para explorar Vila Nova de Gaia. Caminhe pela Avenida da República, descubra os edifícios desenhados por Oliveira Ferreira, percorra as ruas das Devesas e deixe-se surpreender por uma cidade que soube reinventar-se sem perder a sua identidade.
Tenho a certeza de que não se irá arrepender.



