Descubra a Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, e viaje pela história do cinema com exposições, projetores históricos, o Portal Félix e muito mais.
No início de junho, fui a Lisboa para participar em eventos da Semana Brasil–Portugal. Na sede da ApexBrasil decorreram várias palestras e, durante o intervalo para almoço, aproveitei para conhecer melhor os arredores da charmosa freguesia de Santo António. A cerca de 250 metros dali, deparei-me com uma elegante casa com uma placa intrigante: Cinemateca Portuguesa.
Mal sabia que me esperava uma viagem no tempo ao entrar e subir as escadas…
Como nasceu a Cinemateca Portuguesa
Localizada na rua Barata Salgueiro, 39, a moradia era propriedade da família do advogado e político Morais Carvalho até 1979, quando o Estado português adquiriu o edifício e integrou-o na Cinemateca Portuguesa, então dotada de autonomia administrativa e tutelada pelo Ministério da Cultura.
A Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema é uma das mais importantes instituições culturais portuguesas dedicadas à preservação, investigação, divulgação e valorização do património cinematográfico. Naquele endereço há parte do arquivo nacional do cinema, museu, biblioteca e espaço de reflexão sobre a história da sétima arte. Atualmente, a equipa a trabalhar no local tem cerca de 60 pessoas.
Após uma profunda remodelação concluída em 2002, o edifício passou a dispor de duas salas de cinema subterrâneas, do espaço museográfico 39 Degraus, salas de exposições permanentes e temporárias, uma livraria e um restaurante.
Com foco na exibição de obras clássicas, cinema de autor e património cinematográfico mundial, o espaço é reconhecido internacionalmente pela qualidade da sua programação que conta regularmente com ciclos dedicados a realizadores portugueses e estrangeiros, retrospetivas temáticas, sessões comentadas, conferências e exposições e lançamentos editoriais.
A magia do pré-cinema e das primeiras projeções
Merece especial destaque a Exposição Permanente de Pré-Cinema, como uma experiência didática e lúdica, dividida em quatro áreas principais: a Lanterna Mágica; os Brinquedos Óticos; a história da Fotografia; e os primórdios do Cinema. Composta por objetos e aparelhos da coleção, inclui muitos originais de época (desde o século XVIII ao século XX) e um conjunto de réplicas para mexer, o que permite aos visitantes descobrir os antepassados da projeção e da fotografia e a magia da ilusão da imagem em movimento, só possível pelas imperfeições do olho humano.
O Kinetoscópio e o Cinematógrafo dos irmãos Lumière
Logo na entrada, antes de subir as escadas, há uma réplica do Kinetoscópio dos Estados Unidos, da segunda metade do século XIX. Segundo o texto ali exposto, “deve-se ao cientista americano Thomas Alva Edison a criação de um aparelho de projecção de uso individual, o Kinestoscópio, que permitiu projetar imagens em movimento. Em 1881, ao perceber as vantagens da película em celulóide, ele patenteou e apresentou publicamente em maio de 1894, poucos meses antes do lançamento do Cinematógrafo dos Irmãos Lumière”.
Os irmãos Auguste e Louis Lumière já eram reconhecidos como fabricantes de material fotográfico quando se interessaram pelo cinema. O seu Cinématographe podia ser usado tanto como câmara de filmar quanto como projetor. Mais tarde, seria criado um projetor simplificado, e é possível observar na Cinemateca um dos raros exemplares construídos por J. Carpentier, em Paris, sob a patente ali gravada como Cinématographe Lumière número de fabrico 44.
Os projecionistas ambulantes e a difusão do cinema
Para disseminar o cinema, os projecionistas ambulantes desempenharam um papel fundamental na difusão do cinema em regiões sem infraestruturas adequadas, recorrendo a soluções técnicas muitas vezes improvisadas. Segundo o texto exposto ao lado das máquinas, “a montagem do espaço exigia muita precisão técnica: nivelar o projetor para evitar distorções, calcular a distância de projeção conforme a lente disponível, ajustar o foco, avaliar a superfície de exibição – por vezes lençóis, paredes caiadas ou telas caseiras – entre muitos outros pormenores técnicos”.
Eram modelos ditos portáteis de 16 ou 35 mm, como os utilizados pela Associação Iuri Gagarin (ali expostos) acondicionados em caixas próprias, com ferramentas e peças para qualquer imprevisto. Usavam a criatividade a adaptar rodinhas de carrinho de bebés ou bancos de cozinha para resolver algumas das dificuldades.
A evolução das cabines de projeção
No começo das projeções de cinema, o projetor e projecionista ficavam entre os espectadores e o próprio aparelho era utilizado pela publicidade para atrair espectadores. No entanto, como a inflamabilidade da película representava uma ameaça de incêndio, os projetores forem gradualmente remetidos para cabines isoladas do público. Em 1928, após o sucesso do filme falado “O Cantor de Jazz”, as salas portuguesas foram adaptadas para a nova tecnologia que trazia o som como a primeira grande transformação cinematográfica.
Cinema ao ar livre nas noites de Lisboa
As projeções noturnas ao ar livre na Cinemateca Portuguesa tiveram início em 2004 com o filme King Kong, original de 1933. Nos meses de verão, as sessões acompanham o cair da noite. Nos primeiros anos, o ecrã elevava-se do chão em direção ao céu por meio de um sistema de guinchos até atingir a altura máxima projetada. Atualmente, o ecrã é exposto no início da temporada e retirado no final, em uma atmosfera cuja intenção é criar a sensação de assistir a um filme sob o céu de Lisboa, como se fosse um cometa suspenso na noite.
O Portal Félix e a digitalização do património cinematográfico
Nos últimos anos, a Cinemateca reforçou a sua estratégia de digitalização através do Portal Félix, plataforma que disponibiliza gratuitamente informação sobre o património cinematográfico português e permite pesquisar filmes, realizadores, atores, cartazes, fotografias e muitos outros documentos relacionados com o cinema em Portugal, utilizada por investigadores e estudantes.
Ainda em junho de 1953, citado na obra O que é a Cinemateca Nacional, sobre o seu acervo, está dito: “Se dissermos que a biblioteca especializada da nossa Cinemateca é, pelo número de volumes e pelo seu valor, a terceira da Europa, teremos dado uma ideia do que ela representa. Ainda há pouco um estrangeiro ilustre ao folhear o catálogo não hesitou em comentar, ao mesmo tempo surpreso e deslumbrado: ‘Mais c’est tout le monde ici! (Mas está todo mundo aqui)’”
O Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (ANIM)
No Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (ANIM) em Loures é feita a conservação física das películas bem como sua digitalização e restauro. Além do processo de catalogação e preservação de suportes audiovisuais, é conduzida a investigação (pesquisa, no Brasil) técnica. São milhares de películas em diferentes formatos, incluindo nitrato, acetato e suportes digitais, mantendo condições rigorosas de temperatura e humidade para garantir a sua preservação a longo prazo, constituindo-se uma fonte indispensável para investigadores, historiadores, estudantes e profissionais do audiovisual.
Porque vale a pena visitar a Cinemateca Portuguesa
Vale mesmo a pena incluir a Cinemateca Portuguesa no seu roteiro por Lisboa, depois de conhecer os pontos turísticos como o Padrão dos Descobrimentos e a Torre de Belém.
Ali pertinho, há ainda uma preciosidade que proporciona outra viagem no tempo com charme e riquezas, que abordarei em próximo post.
Acompanhe o blog Vida em Ponto e Vírgula nas redes sociais e descubra outros lugares fascinantes de Portugal. Acompanhe, comente e me siga no Insta
Nas redes sociais, divulgo os posts e outros vídeos curtinhos sobre minhas incursões em Portugal.
Não sou Pedro Álvares Cabral, mas continuo, todos os dias, a descobrir um país fascinante — e cada viagem revela uma nova história para contar.
.



