Queima das Fitas, banho dos caloiros no rio Mondego, capas negras, irreverência estudantil, pedras centenárias e o cuidadoso trabalho de conservação de imagens sacras. A Universidade de Coimbra reúne tudo isso — e muito mais.
Estive na Universidade de Coimbra em maio passado, a caminho de Lisboa, e percorri os seus caminhos sob um sol já intenso, encantada com o ambiente onde a história parece estar presente a cada esquina com a jovialidade estudantil.
Partilho um pouco da história, das tradições e das curiosidades dessa Universidade centenária que não é apenas um local de ensino. É património, memória, cultura e uma forma de viver a cidade. As capas negras, as serenatas, a Festa das Latas e a Queima das Fitas fazem parte de sua tradição académica transmitida de geração em geração.
Como canta Milton Nascimento em Coração de Estudante, a vida, o mundo e a amizade também precisam de ser cuidados. Talvez seja essa uma das melhores formas de compreender o espírito de Coimbra.
Coimbra em tempo de Festa das Latas
A minha visita aconteceu em maio, mas o calendário académico da Universidade de Coimbra oferece momentos marcantes como a partir de 29 de setembro com a celebração do início do novo ano letivo em que a cidade volta a receber milhares de estudantes e a viver uma das suas celebrações mais emblemáticas: a Festa das Latas, também conhecida como Latada.
Na noite de 29 de setembro, o Largo da Sé Nova recebe a tradicional Serenata, momento que marca simbolicamente a entrada dos novos estudantes na Academia de Coimbra. Os chamados caloiros encontram nas capas dos seus padrinhos e madrinhas um símbolo de acolhimento para os anos que passarão na Universidade.
A tradição é acompanhada pelo som das guitarras e pelas vozes dos grupos de estudantes ligados à Secção de Fado da Associação Académica de Coimbra.
A Festa das Latas decorre de 1 a 4 de outubro e culmina com o Cortejo da Festa das Latas e Imposição de Insígnias, no dia 4. O cortejo é um dos momentos mais aguardados pelos estudantes e provoca também alterações temporárias na circulação rodoviária e nos transportes urbanos em algumas zonas centrais da cidade. Gostaria de estar lá para conhecer de perto esta festa. Como não será possível, aproveito para regressar, através da memória, à Universidade de Coimbra que conheci um pouco em maio.
Coimbra, uma cidade moldada pela história
Sob o sol intenso de verão, percorri as ruas da Universidade de Coimbra, encantada com o ambiente de uma cidade cuja história remonta à Antiguidade. Na época romana, Coimbra era conhecida como Aeminium. A cidade desenvolveu-se numa posição estratégica junto ao rio Mondego, num corredor natural que ligava o litoral ao interior da Península Ibérica e favorecia as deslocações, o comércio e a organização do território.
Importante explicar que o rio Mondego teve, ao longo dos séculos, um papel fundamental na vida da cidade ligado à agricultura, às atividades comerciais e às comunicações e continua hoje a ser um dos elementos que melhor definem a paisagem de Coimbra.
A localização geográfica ajuda também a compreender a importância histórica da cidade. Situada entre o norte e o sul do território português e entre o litoral e o interior, Coimbra tornou-se, em diferentes períodos, um importante ponto estratégico.
A sua história é feita de camadas. Há a cidade romana, a presença muçulmana, a Coimbra medieval, a cidade ligada aos primeiros reis portugueses e, finalmente, a Coimbra universitária, que se transformou num dos grandes centros culturais e intelectuais de Portugal.
A cidade está profundamente ligada ao nascimento do país. D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, manteve uma das suas principais bases políticas, juntamente com Guimarães, antes da expansão do reino para sul. A Universidade viria muitos séculos depois, mas acabaria por tornar-se parte indissociável da identidade de Coimbra.
A Universidade de Coimbra: mais de sete séculos de história
Em 1290, durante o reinado de D. Dinis, foi criado o Estudo Geral Português, instituição que está na origem da atual Universidade de Coimbra, que começou por funcionar em Lisboa e, ao longo dos séculos seguintes, alternou entre Lisboa e Coimbra. A instalação definitiva em Coimbra ocorreu em 1537, durante o reinado de D. João III, consolidando-se como a grande cidade universitária portuguesa.
O antigo Paço Real, hoje Paço das Escolas, tornou-se um dos grandes símbolos dessa ligação entre a monarquia, a cidade e o conhecimento. A Universidade de Coimbra é uma das mais antigas universidades da Europa ainda em funcionamento e possui mais de sete séculos de história. Hoje, a instituição reúne oito faculdades, além de outras unidades de ensino e investigação, e está espalhada por diferentes espaços da cidade. Em 2025, abrigou 30.308 alunos. A sua influência ultrapassou há muito as fronteiras portuguesas ao desempenhar um papel relevante na difusão do conhecimento no mundo de língua portuguesa.
Essa dimensão histórica e cultural está na base da classificação da Universidade de Coimbra — Alta e Sofia como Património Mundial da UNESCO, atribuída em 2013.
A Capela de São Miguel e a arte de preservar
Entre os espaços que mais despertaram a minha atenção está a Capela de São Miguel, no Paço das Escolas. O edifício foi provavelmente construído no século XII e era utilizado como oratório privado do antigo Paço Real. A sua configuração atual resulta, porém, de diferentes intervenções realizadas ao longo dos séculos, sobretudo durante os séculos XVII e XVIII.
No exterior, o grande portal domina a fachada. No interior, destacam-se os azulejos, os tetos, o altar-mor, o sacrário e o magnífico órgão barroco. O altar-mor apresenta um retábulo em talha dourada, enquanto entre as imagens da capela está a de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Universidade e de Portugal.
Um dos elementos que mais chama a atenção é o órgão barroco, datado de 1737 e com mais de dois mil tubos. A caixa de madeira, revestida por talha dourada e decorada com motivos orientais, apresenta uma dimensão que parece desproporcional ao espaço onde está instalada pois o instrumento foi concebido para uma igreja de maiores dimensões.
Mas, para além da beleza que se vê, há também um trabalho silencioso e minucioso que muitas vezes passa despercebido aos visitantes: o da conservação e do restauro do património.
Foi precisamente aí que encontrei Tânia Corte Real, conservadora-restauradora, com 22 anos de experiência. Estava a trabalhar numa peça acompanhada por um dos seus alunos. Segundo Tânia, o tempo necessário para restaurar uma peça depende do tipo e da dimensão da intervenção. A estátua em que trabalhava naquele momento poderia exigir até quatro meses de trabalho.
A sua formação também revela um percurso singular. Tem duas licenciaturas: a primeira em História da Arte, pela Universidade de Coimbra, e a segunda em Conservação e Restauro, pelo Politécnico de Tomar. A Universidade de Coimbra não oferece uma licenciatura específica nesta área, embora disponha de formação de pós-graduação relacionada com a conservação do património.
Quando entrou na Universidade, a licenciatura em História da Arte apontava inicialmente para a docência. Mas como percebeu que não se identificava com o ensino, procurou uma atividade mais prática, ligada ao património. A sua jornada, entretanto, levou-a, ironicamente, de volta à sala de aula: depois de anos dedicados à conservação e ao restauro, acabou também por se tornar professora na área.
Restaurar é preservar a memória
Para Tânia, o trabalho de conservação e restauro vai muito além da recuperação estética de uma obra, como diz:
– Nós estamos a preservar para o futuro. Foi-nos entregue a responsabilidade de preservar, de garantir que esta memória, que esta história permaneça e vá para o futuro.
A frase ecoou em minhas reflexões. Talvez porque, diante de uma peça antiga, seja fácil pensar apenas naquilo que os nossos olhos conseguem ver. Mas cada camada de tinta, cada intervenção e cada marca do tempo fazem parte da história daquele objeto. Ele transmuta-se e ao mesmo tempo, conserva-se fiel à sua primeira hora como objeto.
O trabalho do conservador-restaurador exige, por isso, conhecimento técnico, paciência e limites. Como explica Tânia, existem princípios éticos que determinam até onde o profissional pode intervir sem alterar a história que recebeu a responsabilidade de preservar. É um trabalho feito para o presente, mas sobretudo para quem ainda virá.
Latada, Serenata e Queima das Fitas: as tradições académicas de Coimbra
Se a Universidade representa séculos de conhecimento, as tradições académicas dão à cidade uma identidade própria. Entre elas estão a Latada, a Serenata e a Queima das Fitas.
A Festa das Latas, ou Latada, marca tradicionalmente o início do ano académico e a integração dos novos estudantes, os chamados caloiros. A tradição tem origem em antigas manifestações estudantis. Ao longo do tempo, estudantes percorriam as ruas fazendo barulho com tachos, latas, cornetas e outros objetos. Daí terá surgido a designação Festa das Latas.
O momento mais conhecido é o Cortejo da Latada, quando os caloiros percorrem as ruas de Coimbra acompanhados pelo ruído das latas amarradas aos seus tornozelos e ao lado de seus padrinhos ou madrinhas, vestidos com capas pretas. Por fim, a tradição inclui ainda o chamado “batismo”, realizado nas águas do Mondego.
A Serenata de Coimbra
Dentro da programação da Latada, a Serenata ocupa um lugar especial. É uma cerimónia noturna, solene e profundamente ligada à Canção e ao Fado de Coimbra. Os estudantes que integram os grupos de fado académico cantam acompanhados pelas tradicionais guitarras portuguesa e clássica.
O Fado de Coimbra é um género marcado pela serenata, pela vida académica e pela relação dos estudantes com a cidade. Durante a Serenata, o ambiente muda completamente. O ruído dá lugar ao silêncio. Os estudantes escutam. Os caloiros permanecem protegidos pelas capas dos seus padrinhos e madrinhas. É um momento de passagem e de acolhimento. Uma espécie de entrada emocional na Academia de Coimbra.
E depois vem a Queima das Fitas
Se a Latada marca a chegada dos novos estudantes, a Queima das Fitas assinala, simbolicamente, a despedida daqueles que terminam a vida académica. É como se a Universidade estivesse permanentemente a repetir o mesmo ciclo: uns chegam enquanto outros partem. Novas capas negras aparecem nas ruas. Outras deixaram-se pelo caminho dos que partiram.
Novas amizades começam. Outras histórias terminam. E Coimbra continua ali.
Uma cidade que permanece. Talvez seja essa a imagem que levo da minha visita a Coimbra: uma cidade que consegue viver simultaneamente em vários tempos.
Há a Coimbra romana, escondida sob a cidade atual. Há a Coimbra medieval dos primeiros reis portugueses. Há a Coimbra universitária, com os seus edifícios, bibliotecas, capelas e tradições. E há a Coimbra contemporânea, onde milhares de jovens continuam a chegar todos os anos para estudar, viver e construir suas histórias.
Entre capas negras, guitarras, pedras centenárias, imagens sacras e o trabalho paciente de quem restaura o património, a cidade parece lembrar-nos que a tradição não significa necessariamente imobilidade. Algumas tradições permanecem porque são repetidas. Outras permanecem porque continuam a fazer sentido.
E talvez seja essa a força de Coimbra: conseguir fazer com que a sua história continue a ser vivida no presente. Eu estive lá apenas por algumas horas. Mas Coimbra, como acontece com algumas cidades, parece ficar em nossa memória afetiva muito depois de partirmos.



