Museu Medeiros e Almeida: carros, aviação, arte e uma história fascinante

Conheça o Museu Medeiros e Almeida, em Lisboa, e a história fascinante de António Medeiros e Almeida, o empreendedor-empresário que trouxe carros ingleses para Portugal e se destacou na aviação portuguesa com a TAP.

O charme de António Medeiros Almeida

Em junho passado, em um intervalo para almoço em Lisboa por conta de um evento da ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção e Investimentos), que integrou a Semana Brasil-Portugal, estava a caminhar pelas ruas da freguesia quando me deparei com um casarão imponente. Era o Museu Medeiros e Almeida. Entrei nessa casa-museu e, durante duas horas, mergulhei em um universo de coleções conectadas à história do desenvolvimento da indústria de Portugal – e me apaixonei pela figura desse empreendedor e sua história.  

 

A entrada já mostra que a visita será impressionante

António Medeiros e Almeida nasceu a 17 de setembro de 1895 em Lisboa, onde o seu pai, João Silvestre d’Al­meida, exercia medicina. Seus pais vieram de Açores, região com que sempre manteve a conexão. A convivência familiar incluía artistas como o artista Veloso Salgado ou o arquiteto Miguel Ventura Terra, dando-lhe um expressivo componente cultural e artístico em sua educação. Seguiu os passos do pai e estudou Medicina. Porém, o espírito empreendedor falou mais alto e com o curso praticamente concluído, desiste e viaja para Berlim. De volta, casa-se em junho de 1924 com Margarida Pinto Basto, descendente por lado materno dos Condes de Pombeiro e do lado paterno da família proprietária da Fábrica de Porcelanas da Vista Alegre. O casal parte para a lua de mel ao volante de um carro de corridas, evidenciando a paixão de António por automóveis.

Algumas peças em uma das salas, cuidadosamente dispostas.

Ironia do destino

É precisamente o seu gosto por automóveis que dá lugar ao seu primeiro projeto profissional como importador de automóveis ingleses das marcas Morris, Wolseley, Riley e MG. Segundo comenta no documentário em exibição no Museu. um dia ao conversar com William Morris, disse que havia abandonado a medicina para se dedicar aos automóveis. Ao que Morris respondeu que a sua grande ambição era ter sido médico:

– Já viu a ironia do destino?

Mas nem tudo estava a caminhar de forma perfeita. Os carros importados não foram concebidos para as ruas de paralelepípedos e para as estradas de Portugal. António (peço desculpas por usar seu primeiro nome, mas já me sinto sua amiga de longa data!) conta que se sentia na obrigação de reparar e reforçar os carros e isso custava investimentos, como explica no documentário:

– Depois de anos de resistência, acabei por convencê-los a fabricar um carro que fosse especificamente desenhado para exportação. E em 1930, surgiu o Morris Tend, fabricado para suportar nossas estradas e ruas e em menos de seis anos, recuperei tudo o que havia perdido e pude retomar o meu vício de colecionador. Gosto de carros e de guiar. Cada vez que recebia um novo modelo, fazia uma viagem e estive ligado aos automóveis até os anos 1960. Devo ter ganho cerca de 42 mil contos (15 million euros), e a maioria desse valor foi destinada ao patrimônio da Fundação.

Testar, vender, resolver os problemas dos carros importados eram parte de sua rotina no negócio.

A paixão pela velocidade e pela inovação o levou à aviação. António foi pioneiro na aeronáutica comercial ao ser um dos fundadores da SATA – Sociedade Açoreana de Transportes Aéreos em 1941. A saga aérea seguiria em 1948 ao adquirir a totalidade do capital social de uma das primeiras companhias aéreas portuguesas de transporte regular, a Aero Portuguesa, que posteriormente funde na TAP – Transportes Aéreos Portugueses. A Aero Portuguesa fazia as ligações aéreas entre Lisboa e Norte da África e durante os anos da II Guerra Mundial, a aeronave era a única a voar para o Tanger e Casablanca, como lembra:

–  Só é pena que os americanos fizeram em 1942 o filme Casablanca e usaram um outro modelo…

Aviação comercial, um negócio de sucesso desse visionário empreeendedor

A II Guerra muda o rumo da sua vida

António sempre manteve atividades comerciais nos Açores, como a participação na União das Fábricas Açorianas de Álcool (UFAA), que teve um impacto significativo nas indústrias açorianas do álcool industrial e do açúcar produzidos a partir da beterraba-sacarina, e na Sociedade de Indústrias Agrícolas Açorianas (SINAGA), fundada por ele em 1967 e onde se manteve como presidente do Conselho de Administração até à morte.

Era um homem que cultivava e mantinha fortes relações de amizade, e por conta dessas relações, é solicitado por Vasco Elias Bensaúde, de origem judaica, a assumir os negócios da empresa Bensaúde nos Açores, que lhe transfere em 1941 a totalidade das empresas familiares ao seu nome. No final da Segunda Guerra Mundial, António restitui integralmente essa participação à família Bensaúde.

Seu escritório tem a mesa com alçado que terá pertencido à North Eastern Railway, a primeira companhia de caminhos-de-ferro inglesa inaugurada em 1825
Sala de jantar montada como em 16 de abril de 1964 quando o casal recebeu os príncipes de Monaco, tendo a Princesa Grace em uma cabeceira e o Prínicpe Rainier em outra. A noite termina com fados pela famosa cantora Amália Rodrigues.

Hoteis, fios e justiça  

Mas nem só no ar ou nas estradas, ele se destacou. Teve negócios na Companhia Nacional de Fiação de Torres Novas, e na construção do Hotel Ritz, em Lisboa, e do Hotel Alvor, no Algarve. Mas era homem também de se incomodar com injustiças e isso o levou a envolver-se em diversas causas sociais, como o apoio à fundação da Universidade Católica, à Colónia Balnear Infantil O Século” e à criação da Fundação Salazar, que tinha como objetivo construir habitação social.

Esse envolvimento deu-lhe amplo reconhecimento por meio de diversas ordens honoríficas nacionais e internacionais, destacando-se a condecoração oferecida pelo Rei Jorge VI de Inglaterra pelo seu papel durante a Segunda Guerra Mundial quando presta assistência às Forças Aliadas através das empresas que geria nos Açores.

Um espaço para descanso

Ao percorrer os diversos aposentos, nos deparamos com peças inusitadas e pioneiras, como uma das primeiras máquinas de fitness importadas dos Estados Unidos nos anos 1950, pois era muito cuidadoso com seu bem-estar físico e sua saúde.

António tratava sua saúde com o mesmo cuidado que tinha com os projetos
Leito específico para a sesta: espreguiçadeira de pau-santo e couro feita em Portugal no século XVIII no período do Rei D. José I
Papeleira miniatura casquinha folheada a pau-santo, pau-rosa e bronze, feita em Portugal no século XVIII. Essas miniaturas eram feitas como prova de exame dos marceneiros para passarem de aprendizes a mestres. Eram conhecidas como 'provas de exame' ou 'obras-primas'"

E quando pensava já ter visto tudo, deparei-me com a escadaria para a Sala do Lago, com paredes revestidas a azulejos portugueses do século XVIII que recriam em cada lado as quatro estações do ano. No teto de madeira pintada, estão os quatro continentes retratados: a Europa é puxada por cavalos; a América, por crocodilos; a Ásia, por camelos e a África, por leões.

No centro da sala, um pequeno lago em mármore italiano rosa de Verona e à sua volta, vitrinas com caixas de tabaco em materiais preciosos e porcelana da China e uma coleção de joias. Há ainda a estátua que representa a Veritus, a deusa da Verdade na mitologia romana, em obra do escultor Raffaele Monti, de 1853.  

Um espaço deslumbrante para eventos como concertos. com estátuas e atmosfera intimista

A linguagem dos leques

Os leques, conhecidos desde os tempos milenares do Antigo Egipto, Grécia, Assíria e China, possuíam a função de afastar insetos e criar uma aragem refrescante em dias quentes. Com o passar do tempo, o leque converteu-se num objecto de sociabilidade e de poder enquanto adereço de moda e requinte, segundo explicação no Museu. A coleção de leques possui exemplares em materiais como papel, seda, renda, pele, marfim, tartaruga ou madrepérola.

A ‘linguagem do leque’ era usada pelas senhoras para discretamente comunicarem-se com os cavalheiros.

Destaco o trecho do código “A linguagem do leque”, publicado pelo fabricante de leques parisiense Duvelleroy em cerca de 1842, exposto no Museu:

Siga-me: segurar o leque na mão esquerda e em frente à face

Desejo conhecê-lo: segurar o leque na mão direita e em frente à face

Eu amo-o: fazer passar o leque aberto em frente à face

Estamos a ser observados: rodar o leque fechado abaixo dos lábios

Eu odeio-o: fazer passar o leque fechado pela mão

Beije-me: levar o leque fechado aos lábios

Bem que podíamos resgatar esse costume em tempos de redes sociais.Seria divertido…

O Museu Medeiros e Almeida

Desde os 20 anos, António interessa-se por antiguidades e, à medida que ganha mais recursos financeiros, inicia seu acervo. Após a II Guerra Mundial, com um mercado de arte rico em oportunidades, com um conhecimento mais apurado e com uma sólida capacidade financeira, adquire obras nas melhores casas de antiguidades e leiloeiras.

Em finais dos anos 1960, consciente do importante espólio reunido e sem descendência, procura uma solução para não dispersar a coleção e idealiza a transformação da sua casa num museu. A partir de então, as compras sucederam-se em grande ritmo até à sua morte, em 1986.

O acervo do atual Museu Medeiros e Almeida – que inclui mobiliário, pintura, escultura, têxteis, ourivesaria, cerâmica, arte sacra, joalharia, relógios – envolve um arco temporal que abrange do século II A.C. ao século XX, de relevância internacional e inserido no que se configura como arte decorativa.

Há 25 anos, diariamente, desde junho de 2001, o Museu abre as suas portas ao público cumprindo assim os desígnios do seu fundador: “realizar o meu sonho que é deixar ao meu País o produto de uma longa vida de trabalho intenso”.

E tem ainda um bom diferencial que é a organização de eventos muito charmosos e elegantes nos vários espaços. Na sala do Lago, por exemplo, há capacidade para 120 pessoas em eventos à mesa e 200 pessoas em eventos volantes com buffet ou em plateia.

Importante ainda lembrar que o museu é particular e, portanto, não está na lista dos museus com entrada gratuita em Portugal. Entretanto, há ocasiões especiais como no primeiro sábado do mês que abrem gratuitamente com visitas guiadas. É interessante informar-se no site.

Os relógios e a luta contra o tempo

Segundo António, os negócios sempre foram uma verdadeira corrida contra o tempo. São inúmeros modelos, como os que pertenceram aos generais franceses que invadiram Portugal sob o comando de Napoleão. Ele explica essa paixão no documentário:

– Sabe, eu gosto de dar-lhes corda e vê-los trabalhar. Por que são importantes para mim? Não sei. Talvez porque simbolizam a única coisa que nunca consegui controlar – o tempo.  Talvez por isso a minha coleção de relógios seja a que me dá mais prazer. Essa é a vida disponível para quem quiser. Talvez, numa câmera que nunca pode parar de funcionar. Tudo bem. Vivemos sempre.

Últimas dicas

Então, se estiver em Lisboa, reserve um tempo (nem vai olhar para o relógio ou o telemóvel!) para conhecer o Museu Medeiros e Almeida. Há visitas guiadas e outras organizadas em ocasiões especiais com especialistas. Vale ver as redes sociais do Museu que trazem novidades e explicações sobre algumas peças em detalhes.   

Redes sociais:

Insta: https://www.instagram.com/museumedeirosealmeida/

Facebook: https://www.facebook.com/museu.medeiros.e.almeida/

Youtube: youtube.com/@museumedeirosealmeida1327

Site: https://www.museumedeirosealmeida.pt/

Local: Rua Rosa Araujo, 41

Horário: Aberto diariamente de segunda-feira a sábado, das 10:00 às 17:00

Nota final: Como está anunciado nas redes sociais do Museu, no último trimestre de 2026, a sala de exposições temporárias recebe uma nova exposição comemorativa dos 25 anos da Fundação Medeiros e Almeida.  

 

A sala dos relógios que guardam tesouros no tempo
Além da sala dos Relógios, outros exemplares estão expostos nos vários espaços da casa
Imagina uma pessoa feliz om o passeio feito? Acertou!

Lena Miessva

Jornalista & Escritora & Blogger

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Olá, Sou Lena Miessva

Entre um ponto e uma vírgula, Lena Miessva percorre várias paragens em busca de histórias que merecem ser contadas. Jornalista por vocação e curiosa por natureza, transforma entrevistas, pesquisas e experiências de viagens em narrativas que unem cultura, história, memória e pessoas. Neste espaço, compartilha descobertas, encontros e reflexões sobre o mundo contemporâneo, tendo a comunicação intercultural e o cuidado com a escrita como fios condutores de cada texto. Um convite para viajar, conhecer e compreender diferentes realidades por meio de novos olhares.

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