Os jardins do Palácio de Cristal, no Porto, voltaram a ser percorridos com curiosidade e satisfação por 231 mil pessoas que visitaram a 13.ª edição da Feira do Livro do Porto, que decorreu entre 21 de agosto e 6 de setembro. Estive lá não apenas como leitora, mas também como estreante na produção coletiva de poemas, numa iniciativa do projeto “Bozes Boadoras”.
Os 144 editores, livreiros e alfarrabistas (comerciantes de livros antigos e usados) receberam um público que não se deixou intimidar nem pelos vendavais nem pela chuva que marcou alguns dos dias do evento, responsável por mais de 200 iniciativas e 400 horas de programação.
Antes de apresentar o projeto e a conversa com seus organizadores, é importante explicar aos leitores e seguidores brasileiros que, no Norte de Portugal, há uma particularidade na pronúncia que pode causar alguma confusão: em determinadas palavras, o som do V aproxima-se do B. Foi algo que aprendi com um jovem português de 20 anos, filho de uma brasileira. A partir daí, para mim, tudo ficou muito mais compreensível!
Dito isto, apresento o projeto “Bozes Boadoras”, que aproveitou a Feira do Livro do Porto para lançar a coletânea de poemas Habitar o Intervalo, integrada por 25 autores com 500 exemplares, já esgotados.
Depois de enviar sugestões de versos a partir de um poema da autora Adelaide Silva, no caso do meu grupo, e de participar em várias reuniões online para a construção de dois poemas, o grupo reuniu-se na Feira do Porto para ler os poemas após Adelaide Silva e de Vasco Vieira Pinto lerem suas obras que continham os versos originais, a base do trabalho coletivo.
O projeto “Bozes Boadoras” (BBB) nasceu da vontade de Pedro Freitas Santos de dar a conhecer poetas populares, especialmente aqueles que participam anualmente no concurso de quadras de S. João, organizado pelo Jornal de Notícias desde 1929.
O local escolhido para reunir os poetas foi o Mercado do Bolhão, um edifício icónico do Porto e profundamente ligado à identidade da cidade.
Segundo Pedro Freitas Santos, “foi nesse ambiente autêntico e popular que o projeto encontrou o seu primeiro palco e a sua metáfora perfeita: um lugar onde a poesia podia misturar-se com o quotidiano, sem filtros, ao alcance de todos”.
Em dezembro de 2024, o projeto foi redesenhado com o objetivo de ampliar fronteiras, contando para isso com a experiência de Teresa Almeida Pinto na coordenação e avaliação de projetos europeus. No Mercado do Bolhão foram realizados sete dos oito encontros.
Espero que gostem da conversa que mantive com os organizadores Pedro Freitas Santos e Teresa Almeida Pinto.
Há quanto tempo escrevem poesia e como se identificaram com este género de escrita?
Teresa Almeida Pinto: Escrevo apenas em situações em que preciso de expressar algo através das palavras ou por “desafio”, como acontece nos encontros poéticos de um pequeno grupo de poesia, “amadrinhado” por Ana Luísa Amaral. O grupo foi criado em 2008 e manteve as suas tertúlias (encontros de pessoas com interesses comuns) até ao falecimento da poeta.
Pedro Freitas Santos: Por influência da minha mãe, que sempre escreveu. Desde muito cedo, portanto, fui motivado, num ambiente familiar, a viver momentos de poesia que, naturalmente, tiveram impacto no desenvolvimento do meu gosto pela escrita.
A poesia pode sensibilizar as pessoas para serem mais solidároas com os outros?
Acreditamos que escrever é um momento de elevação que implica uma adesão ao “agora”, no instante da escrita. É um “desligar” do exterior pela imersão e pela conexão ao campo de todas as possibilidades do nosso interior. Assim, mais próximos daquilo que realmente somos, somos convidados a viver uma espécie de catarse existencial que nos pode tornar melhores seres humanos.
Talvez assim, e cada vez mais, possamos ver o “outro” não como um ser distinto, mas como um prolongamento de nós próprios.
Por outras palavras, acreditamos nisso, mas não por um caminho moralizante ou didático. A poesia é, acima de tudo, um ensaio para a alteridade.
Ao contrário da comunicação funcional, que nos treina para categorizar e distanciar, o poema exige que habitemos — ainda que por breves instantes — a respiração e o ritmo de outro ser.
Nesse ato de leitura ou de escuta, não estamos apenas a “aprender” sobre o outro; estamos a “ser” com o outro.
Como é a rotina do “Bozes Boadoras”? Vocês são um movimento?
Não somos uma instituição formal, nem temos personalidade jurídica. A opção por não nos institucionalizarmos é deliberada: preferimos crescer de forma orgânica, através da adesão voluntária e do reconhecimento da comunidade, em vez de estruturas burocráticas.
Talvez sejamos um movimento porque geramos mudança, atraímos pessoas e criamos uma forma diferente de estar e de comunicar poesia.
A inclusão e o codesign são a base do projeto e estão presentes em todas as suas dimensões. Partimos da inclusão e da diversidade como forças criativas. Diferentes idades, identidades, origens e capacidades não só são bem-vindas, como contribuem ativamente para a construção de cada experiência.
A curadoria é participativa e aberta. O alinhamento de cada sessão não é previamente fechado nem imposto. Partimos dos poemas que recebemos e das vozes de quem participa, permitindo que a própria comunidade influencie o percurso da sessão. Não criamos apenas para a comunidade: criamos com a comunidade. Cada sessão assume uma estrutura clara de espetáculo literário-performativo.
Assim, as sessões BBB não são apenas para assistir e permanecer passivo. O público reage, influência e faz parte da experiência. O resultado é um projeto artístico participativo, inclusivo e sustentável, em que a poesia sai do espaço convencional, encontra a comunidade e transforma o espaço público num lugar de criação, encontro e expressão.
Naturalmente, a concretização de tudo isto exige reuniões presenciais ou online, que acontecem sempre de forma diferente em cada sessão — porque todas as sessões são diferentes.
Como surgiu a ideia de incentivar a criação de poemas coletivos? Afinal, a elaboração de poemas coletivos não é uma ideia inovadora.
Teresa Almeida Pinto: O “Cadáver Esquisito” (Cadavre Exquis) foi uma das práticas mais emblemáticas do surrealismo, e a escrita de um poema a várias mãos também não constitui, por si só, uma prática original. Na sequência de um projeto que coordenei, em 2013 foi produzido um livro infantojuvenil, Doses de Magia, escrito por Ana Luísa Amaral, Raquel Patriarca, Joana Espain e José Ferreira. Os quatro autores nunca revelaram publicamente quem escreveu o quê. Trata-se, portanto, de um longo poema, concebido com um objetivo bem definido e construído de forma coletiva, em que a autoria individual se dilui na criação conjunta.
Na apresentação do nosso livro, Habitar o Intervalo, quisemos, de algum modo, levar a escrita coletiva mais longe, através de poemas coletivos lidos publicamente a várias vozes.
Numa primeira fase, cada participante da sessão é convidado a escrever um verso que dialogue com outro verso retirado do livro. Numa segunda fase, reúnem-se entre oito e 12 versos e os respetivos autores — muitas vezes pessoas que nunca se conheceram — são desafiados a construir um novo poema a partir dos versos que cada um escreveu.
Mais do que um simples exercício de escrita coletiva, procuramos, assim, criar uma experiência de leitura, diálogo e criação, em que diferentes vozes se encontram e em que um verso pode funcionar como ponto de partida para novas relações entre leitores, autores e poemas.
Esse é o poema coletivo construído a partir de “Amor é um emaranhado” de Adelaide Silva, com versos de: Ana Magally Freitas, Clara Lencastre, Susana Diego, Maria Miranda, Catarina de Carvalho, Isabelle Neri, Lena Miessva, João Cardoso, Ana Rita Valbom, Quebras.
Amor é um emaranhado
De sentimentos e ilusões
De despedidas que aprenderam a ficar
Tecendo memórias e sonhos guardados.
Amor é um emaranhado,
É novelo ensarilhado
Brinquedo de gato assanhado
Que se enrola da cabeça aos pés.
Amor é um emaranhado,
É um labirinto de enigmas mudos,
Onde caminhamos cegos, tropeçando
É uma doença a precisar de ajuda
Entrelaçando os nossos contornos em êxtase.
Amor é um emaranhado
De riscos coloridos na tela branca da vida
Despertando emoções contraditórias,
Em dança eterna entre ir e regressar,
Como um punhado de areia devolvido ao mar.
E agora que já conhece o projeto, vamos a ele?
Se gosta de poesia, vale a pena conhecer o “Bozes Boadoras” e acompanhar o trabalho dos seus organizadores.
Pode entrar em contacto através do Instagram do projeto.
Serás muito bem-vindo ou bem-vinda!



