Já viveu a experiência de viajar no tempo ao visitar um museu? Não? Então, quando vier a Portugal, tem de conhecer o Museu da Máquina de Escrever, situado na vila da Golegã, conhecida como a capital do cavalo, especialmente do Puro-Sangue Lusitano.
Em março, a propósito da reportagem Um maestro nos campos de Portugal sobre a Companhia das Lezírias, para o site NP Agro, dos jornalistas Fernando Lopes e Alexandre Ignacio, a caminho de Lisboa fiz uma paragem na Golegã. A vila destaca-se como um dos centros mais importantes da equitação em Portugal, sobretudo ligada à criação de cavalos Puro-Sangue Lusitano. Localiza-se no distrito de Santarém, na região do Ribatejo, e conta com cerca de 5.500 habitantes numa área de 84 km².
O nome Golegã deriva de uma estalajadeira galega (“A Gallega”) que se estabeleceu no local no século XV. A vila prosperou graças à sua localização privilegiada entre Tomar e Santarém, atraindo viajantes, comerciantes e criadores de cavalos. Hoje, é um dos maiores centros de criação de cavalos do país.
Ali, depois de almoçar uma saborosa refeição num restaurante da praça, visitei a Igreja Matriz, datada do século XVI, e estava a passear quando vi uma bela casa rosa e a placa Museu de Máquinas de Escrever (MME) . Estranho, não? Sem hesitar, entrei.
O museu está instalado no piso superior da Biblioteca Municipal da Golegã, num edifício que foi o antigo Palacete Marques de Almeida e que hoje é um agradável espaço histórico adaptado à cultura e à leitura. Inaugurado em setembro de 2013, abriu ao público graças a uma colaboração entre o Município da Golegã e o colecionador Artur Azinhais, que reuniu a coleção ao longo de cerca de 30 anos.
A descrição de José Luís Peixoto no seu blogue Viagens para Ler corresponde exatamente à sensação que tive ao ver aquelas máquinas onde aprendi a datilografar – a atividade precursora de digitar. Ao entrar no Museu da Máquina de Escrever, regressei à minha infância, quando conheci a máquina de escrever, instrumento imprescindível no escritório de contabilidade do meu pai – a Braspar Serviços de Contabilidade (uma fusão das palavras Brasil e Paraná, onde ele nasceu).
O sonho de muitas mães na minha adolescência
Ao ver os modelos da década de 1970, recordei-me do desejo da minha mãe de que eu aprendesse a datilografar e fizesse um concurso público (ter uma filha funcionária pública, com salário garantido, para assegurar o futuro era o sonho de muitas mães, como a minha). Assim, lá fui eu aprender a sequência QWERT com todos os dedos da mão esquerda. Depois as sequências com os dedos da direita, sempre sem olhar para o teclado! Mais tarde, por voltas da vida, fui trabalhar em Recursos Humanos na Máquinas de Escritório Olympia do Brasil – e adorava ver a montagem das máquinas na linha de produção!
O MME apresenta cerca de 350 máquinas de escrever manuais, colecionadas durante mais de 30 anos por Artur Azinhais, constituindo o maior acervo do género em Portugal. A exposição é complementada por um vasto espólio documental: postais, manuais, catálogos, cartazes, faturas, bem como acessórios como fitas, tintas, corretores, óleos, borrachas e outros instrumentos de manutenção e reparação.
Os modelos fabricados na Alemanha, França, Estados Unidos da América estão representados com algumas das marcas mais emblemáticas, incluindo Remington, Underwood, Smith Corona, Olivetti, Groma e a única marca nacional, a Messa. A máquina mais antiga é uma Remington de 1895. A coleção vai do final do século XIX até às décadas de 1970 e 1980.
Uma montagem feita com carinho
Os funcionários da Câmara Municipal da Golegã conheceram o acervo reunido pelo colecionador e propuseram criar o museu, preservando e divulgando as peças. A exposição está organizada em quatro salas, onde cada década do século XX está representada, permitindo acompanhar a evolução tecnológica das máquinas de escrever. Um filme demonstrativo leva o visitante a uma verdadeira viagem no tempo, repleta de memórias.
Veja como tudo começou no universo da escrita por máquinas
Já alguma vez teclou numa máquina de escrever?
Quem viveu antes da era do computador lembra-se do som da campainha quando se aproximava o fim da linha, da alavanca para mudar de linha, do ruído das teclas que ajudava a pensar e das vezes em que as hastes das letras se enredavam. Recorda também truques como usar o “l” minúsculo (ele) para fazer de número “1”.
Alguns modelos estão disponíveis para experimentar – os visitantes podem sentir o som das teclas e reviver tempos passados. Segundo o blogue Portugal Lupa, um visitante relatou que “não escreveu… só fez o barulho das teclas para matar saudades”. Ainda de acordo com o blogue, a máquina de escrever tornou-se indispensável no mundo dos negócios e um instrumento de novas oportunidades de emprego, sobretudo pela emancipação da mulher no mercado de trabalho. Com o maior acesso à escolaridade, surgiram profissões femininas socialmente valorizadas, para as quais o curso de dactilografia era essencial. A configuração mecânica e a forma definitiva da máquina de escrever portátil, que permitiu o seu uso em qualquer lugar, surgiu com a Standard, em 1907.
A visita fez-me ainda recordar um episódio do início dos anos 2000, quando, numa empresa onde eu era gerente de Comunicação, um jovem estagiário (hoje pai de família e executivo de marketing) ficou estupefacto ao ver uma máquina de escrever ao vivo e a cores, durante uma ação de divulgação sobre distribuição de mailings e press releases:
— O texto datilografado sai no papel automaticamente. Nem precisa de impressora!
O fim da produção de máquinas de escrever tornou-se inevitável com a evolução tecnológica. Abril de 2011 marcou o encerramento da última fábrica, da multinacional Godrej & Boyce, em Bombaim (Índia), pondo fim à produção industrial destas máquinas.
Entretanto, nunca mais – desde que aprendi a datilografar – deixei de ter ao meu lado uma máquina de escrever e depois um PC e depois um notebook. É meu companheiro inseparável para registo de ideias, textos jornalísticos, e-mails e – a cereja do bolo – meus livros – um já pronto e outro em seu início de caminhada!
E, da próxima vez que for a Lisboa, vou voltar a parar na Golegã (em novembro realiza-se a feira internacional dedicada ao cavalo lusitano, com corridas, concursos e espetáculos equestres) para visitar a Casa-Estúdio Carlos Relvas, um dos primeiros estúdios fotográficos do século XIX, projetado e utilizado pelo fotógrafo Carlos Relvas. É um excelente ponto de partida para conhecer melhor o Ribatejo, com a sua paisagem de campos férteis, lezírias e rios.




