Portugal esconde tesouros por descobrir, e um deles encontra-se no conjunto de obras expostas no Museu José Malhoa, situado no Parque D. Carlos I. na cidade de Caldas da Rainha. Esta cidade, para além das termas medicinais, é também conhecida pela produção de cerâmica e pelo cultivo de frutas.
O Museu José Malhoa foi o primeiro edifício em Portugal concebido de raiz para fins museológicos. Para além das obras do pintor José Malhoa, acolhe uma importante coleção de pintura e escultura dos séculos XIX e XX, afirmando-se como o museu do naturalismo português.
José Vital Branco Malhoa nasceu nesta cidade há 170 anos, a 28 de Abril de 1855. Com apenas 12 anos, ingressou na Real Academia de Belas-Artes de Lisboa, tendo vencido o primeiro prémio todos os anos em que ali estudou. Expôs em diversas cidades, incluindo Madrid, Paris e Rio de Janeiro. Foi pioneiro do naturalismo em Portugal e destacou-se pela aproximação à corrente impressionista. Foi também o primeiro presidente da Sociedade Nacional de Belas Artes. Segundo o museu, “ao longo da sua carreira, Malhoa retratou o povo, a burguesia, a aristocracia e a nobreza. Realizou retratos ao vivo ou a partir de fotografias, anónimos ou imaginários, inspirados em expressões individuais, contextos sociais ou acontecimentos marcantes”.
Para além das obras expostas no interior, também nos jardins do Parque D. Carlos I encontram-se peças artísticas que, durante a actual gestão, receberam nova sinalética, com dados do autor, título da obra e QR codes que facilitam o acesso a informações adicionais de forma mais leve e informal.
Trabalho em cerâmica notável
Entre as peças da colecção permanente destaca-se “A Paixão de Cristo a Caminho do Calvário”, de Rafael Bordalo Pinheiro (1887-1899). Segundo o jornal Expresso (20 de Março de 2024), “Rafael Bordalo Pinheiro está, no nosso imaginário, mais associado ao sarcasmo do que à dor (…) Mas foi a um Bordalo tão ácido como talentoso que o Governo recorreu em 1887 para encomendar um conjunto escultórico em terracota, representando os passos da Paixão de Cristo, destinado às capelas da Mata do Buçaco”. O projecto nunca se concluiu nem foi instalado como previsto, mas permanece nas Caldas da Rainha como um notável conjunto com cerca de 60 figuras em barro cozido policromado. O movimento, expressão e emoção das peças envolvem o visitante numa experiência imersiva e intensa. Veja abaixo algumas das obras e atente à s expressões.
Uma brasileira com novo olhar sobre o museu
Em Janeiro deste ano, a caminho de Lisboa, visitei o museu e fiquei encantada com as obras. Meses depois, entrevistei por videoconferência a sua directora, a antropóloga brasileira Nicole Costa. Desde 2021, está à frente do Museu José Malhoa, do Museu da Cerâmica (também nas Caldas) e do Museu Dr. Joaquim Manso, na Nazaré.
Nicole Costa é doutorada em Antropologia, especialista em arte/educação e membro do ICOM – Conselho Internacional de Museus. Foi directora-geral do Paço do Frevo, no Recife, classificado como património imaterial da UNESCO. Aí recebeu prémios por projectos nas áreas da música, património, educação e dança, e desenvolveu programas de formação de professores. Também foi professora e coordenadora cultural da CUFA Pernambuco durante cinco anos.
A sua vinda para Portugal marcou o início de uma internacionalização profissional desejada. Venceu um concurso de seleção internacional e trouxe para os museus portugueses a sua experiência em mediação cultural. A sua estratégia baseia-se no conceito “Envolver para Desenvolver”, com três eixos: comunidades, territórios e arte.
Nicole defende uma gestão horizontal, participativa e de co-decisão. Promove iniciativas como o Depois Malhoa, visitas mediadas por especialistas em ambiente descontraído, com diálogo entre saberes académicos e o público. Outro destaque é a inclusão activa de jovens na programação: em 2023, dois jovens curaram uma exposição contemporânea dialogando com obras do museu, com formação para artistas, equipa e visitantes.
“Os museus devem ser espaços de democracia, diversidade e inclusão, com patrimónios vivos e acessíveis. Devem permitir o debate de temas difíceis, estimular a cooperação e manter-se próximos das pessoas”, afirma.
Sobre o edifício do Museu José Malhoa, destaca que é o primeiro museu construído de raiz em Portugal (em meados do século XX). Para além da exposição permanente que abrange do século XIX ao XX, há exposições temporárias, uma biblioteca especializada (aberta por marcação), concertos e visitas agendadas.
“Usem e visitem os vossos museus. Eles servem para aprender, namorar, passear, rir e chorar”, conclui.
História em resumo
No século XIX, Caldas da Rainha ganhou relevo pelas estâncias termais procuradas pela elite. A abundância de argila favoreceu a indústria cerâmica, com destaque para a Fábrica de Faianças das Caldas, fundada por Rafael Bordalo Pinheiro com apoio de Ramalho Ortigão. Tornou-se cidade em 1927 e, para além da cerâmica, passou a destacar-se também nas artes plásticas.
Linha do tempo do Museu José Malhoa
- 1926: José Malhoa oferece à cidade o quadro “Rainha D. Leonor”
- 1927: É criada a Liga dos Amigos do Museu José Malhoa
- 1934: Fundado o museu
- 1962: Criação do Serviço Educativo
- 1964: Exposição de cerâmica (embrião do Museu da Cerâmica)
- 1977: “Expo Caldas-77”
- 1983: Exposição antológica pelos 50 anos da morte de Malhoa
- 1992: Legado da colecção de António Montês
- 2005: Exposição “Malhoa e Bordalo: Confluências duma geração”
- 2007: Denominação oficial alterada para “Museu José Malhoa”
- 2006-2008: Obras de requalificação do edifício
E para reforçar o convite de Nicole Costa, veja algumas das obras expostas no Museu José Machoa.
E tem mais: Museu José Malhoa, em Caldas da Rainha, oferece entrada gratuita a cidadãos portugueses e residentes em Portugal, segundo o site gov.pt. A entrada gratuita é válida mediante apresentação de um documento com NIF e a utilização do Voucher 52 na bilheteira .




